O que é o refluxo gastroesofágico?
O refluxo gastroesofágico ocorre quando o conteúdo do estômago — incluindo ácido, bile e alimentos parcialmente digeridos — retorna ao esôfago de forma recorrente. Esse retorno acontece porque a válvula localizada entre o esôfago e o estômago, chamada de esfíncter esofágico inferior, não consegue se fechar adequadamente. Quando esse fenômeno passa a causar sintomas frequentes ou lesões no esôfago, recebe o nome de doença do refluxo gastroesofágico (DRGE).
Trata-se de uma condição muito comum no Brasil e no mundo, e que, por ser crônica, exige acompanhamento médico contínuo e personalizado. Cada pessoa pode apresentar um padrão diferente da doença, o que torna a avaliação individualizada fundamental para o sucesso do tratamento.
Quais são os principais sintomas?
Os sintomas mais conhecidos da DRGE são a azia (sensação de queimação que sobe do estômago em direção à garganta) e a regurgitação (retorno de líquido ou alimento para a boca). No entanto, a doença pode se manifestar de formas menos óbvias, que frequentemente confundem pacientes e até profissionais de saúde:
- Tosse seca persistente, especialmente à noite
- Rouquidão ou alterações na voz
- Sensação de "nó" na garganta
- Dor no peito que pode ser confundida com problemas cardíacos
- Dificuldade para engolir (disfagia)
- Piora dos sintomas ao deitar ou após refeições copiosas
A presença de qualquer um desses sinais de forma frequente justifica uma consulta com um especialista para investigação adequada.
Por que o refluxo acontece? Entendendo as causas
A DRGE raramente tem uma única causa. Ela é resultado de uma combinação de fatores que enfraquecem a barreira entre o esôfago e o estômago ou que aumentam a pressão dentro do abdômen. Entre os fatores mais frequentemente associados estão:
- Hérnia de hiato: quando parte do estômago "sobe" para o tórax através do diafragma, comprometendo o funcionamento da válvula antirrefluxo
- Excesso de peso e obesidade: o aumento da pressão abdominal favorece o retorno do conteúdo gástrico
- Hábitos alimentares: consumo excessivo de alimentos gordurosos, cítricos, chocolate, café, bebidas alcoólicas e refrigerantes
- Tabagismo: reduz a eficiência do esfíncter esofágico
- Gravidez: as alterações hormonais e o aumento da pressão abdominal são fatores desencadeantes temporários
- Uso de alguns medicamentos: como anti-inflamatórios e relaxantes musculares
- Estresse e ansiedade: podem amplificar a percepção dos sintomas e alterar a motilidade do esôfago
Como o diagnóstico é feito?
O diagnóstico da DRGE começa com uma consulta detalhada, em que o médico avalia o histórico de sintomas, hábitos de vida e fatores de risco. A partir daí, alguns exames podem ser solicitados para confirmar o diagnóstico, avaliar possíveis lesões e orientar o tratamento:
- Endoscopia digestiva alta: visualiza diretamente o esôfago, o estômago e o duodeno, identificando inflamações, úlceras, esôfago de Barrett e outras alterações
- pHmetria esofágica: mede a quantidade de ácido que chega ao esôfago ao longo de 24 horas, sendo considerado o exame de maior precisão para confirmar o refluxo ácido
- Manometria esofágica: avalia a pressão e a coordenação muscular do esôfago, informação essencial antes de qualquer cirurgia
- Impedâncio-pHmetria: detecta não apenas o refluxo ácido, mas também o refluxo não ácido, útil em casos de sintomas persistentes mesmo com uso de medicação
O que diz a pesquisa recente
Uma publicação de Katzka DA et al., BMJ (Clinical research ed.), 2020, trouxe uma visão aprofundada sobre os avanços no diagnóstico e no tratamento da DRGE. De forma resumida, os autores destacam que a doença não é uma condição única, mas sim um conjunto de apresentações clínicas distintas — incluindo formas sem lesão visível no esôfago, formas com esofagite, refluxo laringofaríngeo e a chamada síndrome de hipersensibilidade esofágica. Esse entendimento é importante porque explica por que pacientes com sintomas semelhantes podem ter respostas muito diferentes ao mesmo tratamento. Os autores também reforçam que o uso indiscriminado de medicamentos supressores de ácido (como os inibidores da bomba de prótons) nem sempre é a abordagem mais adequada para todos os perfis da doença, e que fatores como ansiedade, alterações da motilidade e hipersensibilidade esofágica devem ser considerados. A conclusão central é que o manejo precisa ser personalizado, baseado no perfil específico de cada paciente — o que vai ao encontro do que praticamos na consulta individualizada. ver no PubMed.
Tratamento: do estilo de vida à cirurgia
O tratamento da DRGE quase sempre começa por medidas não cirúrgicas. As mudanças no estilo de vida têm papel central: redução do peso corporal, fracionamento das refeições, elevação da cabeceira da cama, suspensão do tabagismo e evitar deitar logo após comer são orientações que fazem diferença real no dia a dia. Em paralelo, os medicamentos — especialmente os inibidores da bomba de prótons — são amplamente utilizados para controlar a produção de ácido e aliviar os sintomas.
No entanto, uma parcela dos pacientes não obtém controle satisfatório com essas medidas ou prefere não depender de medicação contínua. Nesses casos, a cirurgia antirrefluxo pode ser considerada. O procedimento mais realizado é a fundoplicatura, geralmente feita por via laparoscópica (minimamente invasiva), na qual parte do estômago é envolvida ao redor do esôfago para reforçar a válvula antirrefluxo. A cirurgia também é indicada quando há hérnia de hiato volumosa ou quando existem complicações associadas à doença.
A decisão pela cirurgia deve ser cuidadosa e precedida por avaliação clínica completa, incluindo os exames funcionais do esôfago. Nem todo paciente com DRGE é candidato ao procedimento, e a conversa franca entre médico e paciente é essencial para alinhar expectativas e escolher o melhor caminho.
Quando procurar um especialista?
Alguns sinais pedem atenção especial e devem motivar uma consulta sem demora:
- Sintomas frequentes (mais de duas vezes por semana) que não melhoram com medidas simples
- Dificuldade progressiva para engolir
- Perda de peso sem explicação aparente
- Vômitos frequentes ou com sangue
- Diagnóstico prévio de esôfago de Barrett
- Dor no peito intensa (após excluir causas cardíacas)
O acompanhamento com um cirurgião do aparelho digestivo e coloproctologista permite uma avaliação completa, desde o diagnóstico diferencial até a discussão das alternativas de tratamento, sempre com foco na segurança e na qualidade de vida do paciente.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo, não substituindo a consulta médica presencial nem o diagnóstico individualizado. Caso você reconheça sintomas descritos aqui, procure avaliação com um especialista. O Dr. Daniel Szor está disponível para orientar você de forma personalizada e segura.
