Dr. Daniel Szor
Enjoo, refluxo e intestino preso com Ozempic e Mounjaro, como aliviar
Voltar ao Informativo
Informativo

Enjoo, refluxo e intestino preso com Ozempic e Mounjaro, como aliviar

26 de setembro de 2026 · leitura de 28 min

Resposta rápida

Enjoo, plenitude, refluxo, intestino preso e diarreia são os efeitos colaterais mais comuns da semaglutida (Ozempic, Wegovy, Rybelsus), da tirzepatida (Mounjaro) e da liraglutida (Saxenda, Victoza). No estudo STEP 1, com semaglutida 2,4 mg, 44% tiveram náusea, 32% diarreia, 25% vômito e 23% prisão de ventre, contra 17%, 16%, 7% e 10% no placebo. No SURMOUNT-1, com tirzepatida, a náusea variou de 25% a 33% conforme a dose. Na análise conjunta dos estudos STEP, 98% desses episódios foram leves a moderados, concentraram-se nas semanas de aumento de dose e duraram pouco: a mediana foi de 8 dias para o enjoo, 3 para a diarreia e 2 para o vômito. A prisão de ventre é a exceção e durou em mediana 47 dias. O remédio atrasa o esvaziamento do estômago e age no cérebro para dar saciedade precoce, por isso refeição grande é o principal gatilho. O que mais ajuda é reduzir o tamanho do prato, comer devagar, parar ao primeiro sinal de saciedade, cortar gordura e fritura no início, beber água de forma ativa e tratar o intestino preso cedo, de preferência com macrogol. A dose não deve subir enquanto houver enjoo, refluxo ou dificuldade para comer e beber. Nos estudos com semaglutida, cerca de 4% a 5% abandonaram o tratamento por esses efeitos. Dor abdominal forte ou contínua, vômitos repetidos, incapacidade de manter líquidos, barriga cada vez mais distendida sem eliminar gases, dor do lado direito com febre ou pele amarelada não são efeito esperado e pedem avaliação no mesmo dia.

A caneta começou há cinco semanas. A primeira aplicação foi tranquila. Na segunda semana, o almoço de domingo terminou com enjoo até a noite. Agora veio a dose nova e, junto com ela, arrotos com cheiro de ovo, uma queimação que sobe pelo peito e um intestino que não funciona há quatro dias. A busca na internet devolve, em segundos, "gastroparesia", "pancreatite" e "obstrução intestinal".

O medo é compreensível. Mas quase tudo o que foi descrito acima é o que os estudos com esses remédios registraram com frequência, nas mesmas semanas e pelo mesmo motivo. E quase tudo tem manejo.

O problema é que, no meio dos sintomas esperados, existe uma lista menor de sintomas que não são do remédio, ou que são complicação dele, e que precisam de avaliação. Este texto serve para separar as duas coisas. No fim, você deve saber em qual grupo está.

O que o remédio faz, além de esvaziar o estômago mais devagar

A semaglutida (Ozempic e Wegovy, em caneta, e Rybelsus, em comprimido), a liraglutida (Saxenda e Victoza) e a tirzepatida (Mounjaro) imitam o GLP-1, um hormônio que o intestino libera depois de comer. A tirzepatida age também num segundo receptor, o do GIP. O hormônio natural dura minutos no sangue. Os remédios foram modificados para durar dias.

O mesmo mecanismo que faz a pessoa comer menos é o que provoca enjoo, plenitude e refluxo. Não são dois efeitos diferentes. São duas intensidades do mesmo efeito. E ele não se resume ao estômago lento. Há três mecanismos atuando juntos.

  • O estômago esvazia mais devagar. O GLP-1 relaxa a parte alta do estômago, reduz as contrações da parte final e aumenta o tônus do piloro, a válvula de saída. A comida fica mais tempo lá dentro.
  • O cérebro recebe o sinal de saciedade mais cedo. Os remédios de longa ação chegam a regiões do tronco cerebral e do hipotálamo que controlam a fome e também a náusea. Uma delas, a área postrema, é um centro do vômito. A revisão de Douros e colaboradores, de 2025, resume os estudos em animais: ali o remédio reduz a ingestão tanto por saciedade quanto por uma sensação de aversão à comida. Parte do enjoo vem do cérebro, e não do estômago.
  • Estômago e cérebro conversam pelo nervo vago. A distensão causada pela comida retida soma-se ao sinal central de saciedade, e a pessoa se sente cheia com menos comida.

O estômago não encolhe

O remédio não diminui o tamanho do estômago. A capacidade anatômica é a mesma de antes. O que muda é a saciedade, a sensibilidade à distensão e a velocidade com que a comida sai.

Na prática, o estômago ainda cabe o prato de antes. Mas, quando recebe esse prato, fica cheio por mais tempo e manda um sinal de desconforto mais forte. Daí a sequência que muita gente reconhece: refeição grande, distensão, plenitude, enjoo, arroto, refluxo e, às vezes, vômito. Ela é mais comum nos dias seguintes à aplicação e depois de subir a dose.

Por que o enjoo melhora com as semanas

Em 2011, Nauck e colaboradores deram GLP-1 na veia a nove voluntários saudáveis por oito horas e meia. O retardo do esvaziamento do estômago foi claramente maior depois da primeira refeição do que depois da segunda, quatro horas mais tarde. Esse fenômeno se chama taquifilaxia: o corpo passa a responder menos a um estímulo que se mantém.

Em 2014, Umapathysivam e colaboradores compararam, em dez homens saudáveis, a infusão contínua de GLP-1 por 24 horas com infusões intermitentes. Com a exposição contínua, o retardo do esvaziamento foi atenuado. Com a intermitente, foi mantido. É a base da observação de que os remédios de longa ação, com nível constante no sangue, perdem parte do efeito sobre o estômago com o tempo.

Há duas ressalvas. O efeito diminui, mas não desaparece: as revisões de Jalleh e colaboradores, de 2024, lembram que resíduo de alimento no estômago continua mais frequente em quem usa esses remédios. E cada aumento de dose traz uma nova exposição. Por isso o enjoo costuma vir em ondas, acompanhando as mudanças de dose.

Quantas pessoas têm cada sintoma

Os números vêm dos dois estudos que levaram esses remédios ao tratamento da obesidade. O STEP 1, de Wilding e colaboradores, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, acompanhou 1.961 adultos sem diabetes por 68 semanas com semaglutida 2,4 mg. O SURMOUNT-1, de Jastreboff e colaboradores, na mesma revista em 2022, acompanhou 2.539 adultos sem diabetes por 72 semanas com tirzepatida.

SintomaSemaglutida 2,4 mg (STEP 1)Placebo (STEP 1)Tirzepatida 5 a 15 mg (SURMOUNT-1)
Náusea44,2%17,4%24,6% a 33,3%
Diarreia31,5%15,9%18,7% a 23,0%
Vômito24,8%6,6%8,3% a 12,2%
Prisão de ventre23,4%9,5%11,7% a 17,1%
Abandono do tratamento4,5% por efeito gastrointestinal0,8%4,3% a 7,1% por qualquer efeito adverso

No SURMOUNT-1, a náusea no placebo foi de 9,5%, e o abandono por efeito adverso, de 2,6%. A tabela pede três leituras.

O placebo também tem sintoma. Uma em cada seis pessoas que recebeu injeção sem remédio relatou náusea no STEP 1.

O sintoma é comum, mas raramente grave. Na análise conjunta dos estudos STEP 1 a 3, de Wharton e colaboradores, com 2.117 pessoas em semaglutida, 99,5% dos eventos gastrointestinais não foram graves e 98,1% foram leves ou moderados.

E a comparação entre colunas pede cuidado. São estudos diferentes, com populações e formas de registrar sintomas diferentes. A tabela mostra ordem de grandeza, não um ranking entre remédios.

Quando os sintomas aparecem e quanto duram

Nos estudos STEP, a semaglutida começou em 0,25 mg por semana e subiu a cada quatro semanas até a dose final, na semana 16. A frequência de náusea, diarreia e vômito atingiu o pico por volta da semana 20 e caiu depois. A maioria de quem teve sintoma digestivo teve o primeiro episódio ainda na fase de aumento de dose.

Cada episódio durou pouco. A mediana foi de 8 dias para a náusea, 3 dias para a diarreia e 2 dias para o vômito, parecida com a do placebo. A prisão de ventre é a exceção: durou em mediana 47 dias com o remédio, contra 35 no placebo.

Com a tirzepatida, o padrão se repetiu. A análise dos estudos SURMOUNT 1 a 4, de Rubino e colaboradores, de 2025, mostrou os sintomas concentrados nas 20 semanas de aumento de dose. O uso de remédio para enjoo e para diarreia também se concentrou nas primeiras 24 semanas.

E o enjoo não é "o que faz emagrecer". Nos estudos STEP, a perda de peso foi parecida entre quem teve e quem não teve sintomas digestivos. Sofrer não é sinal de que o remédio funciona melhor.

Leia o seu próprio quadro, item por item

Antes de decidir o que fazer, organize o que está acontecendo com quatro perguntas.

  • Qual é o sintoma. Enjoo, plenitude, arroto, azia, intestino preso e diarreia pertencem ao repertório esperado. Dor forte, febre, sangue, pele amarelada e barriga que só aumenta não pertencem.
  • Quando começou em relação à dose. Sintoma nos dias seguintes à aplicação e nas semanas após um aumento tem a cara do remédio. Sintoma novo meses depois, numa dose estável e bem tolerada, merece outra explicação até prova em contrário.
  • Quanto está durando. Enjoo de alguns dias, que melhora antes da próxima aplicação, é o padrão dos estudos. Enjoo contínuo por semanas não é.
  • Você está conseguindo comer e beber. Esta é a pergunta que mais pesa. Comer menos é o objetivo. Não conseguir manter líquido nem uma refeição pequena, ou urinar pouco e escuro, é outra situação.

Com as respostas, você cai em um de três grupos.

  • Grupo 1, efeito esperado e tolerável. Enjoo leve, plenitude, intestino um pouco mais lento, nas semanas de aumento de dose, comendo e bebendo. Conduta: os ajustes de alimentação e hidratação abaixo, e seguir o plano.
  • Grupo 2, efeito esperado que está atrapalhando. Enjoo que não deixa comer, refluxo diário, vômitos ocasionais, intestino preso há muitos dias ou diarreia a cada aplicação. Conduta: falar com quem prescreveu antes da próxima dose. Aqui entram não subir a dose, voltar para a anterior e remédios de apoio.
  • Grupo 3, sintoma que não é efeito esperado. Dor forte ou contínua, vômitos repetidos, incapacidade de beber, barriga distendida sem gases, febre, pele amarelada, sangue nas fezes. Conduta: avaliação no mesmo dia, sem aplicar a próxima dose antes de ser examinado.

Comer menos de cada vez, não mais vezes

"Fracionar a dieta" costuma ser entendido como comer de seis a oito vezes por dia. Com esses remédios, isso raramente é necessário. Quem mal tem fome para três refeições não vai fazer oito.

O que resolve na maioria das vezes é mais simples: reduzir o tamanho das refeições que você já faz. Se o almoço era um prato cheio, passe para meio prato. Se sobrar fome duas horas depois, faça um lanche pequeno. O número de refeições se ajusta sozinho.

  • Coma devagar. O sinal de saciedade demora a chegar. Quem come rápido passa do limite antes de perceber.
  • Pare no primeiro sinal de estar satisfeito, e não quando se sentir cheio. Com o remédio, a distância entre os dois ficou curta.
  • Separe líquidos das refeições. Um copo grande junto com o prato soma volume ao estômago. Beba nos intervalos.
  • Evite refeição farta perto da aplicação e na semana em que a dose sobe. Churrasco no domingo e aplicação no domingo à noite é uma combinação que muita gente aprende a evitar.
  • Não deite logo depois de comer. Espere cerca de três horas.

São as mesmas medidas das recomendações práticas de Wharton e colaboradores, de 2022.

O que evitar no começo

Nas primeiras semanas e em cada aumento de dose, alguns alimentos pioram os sintomas de forma previsível.

  • Gordura e fritura. A gordura já atrasa o esvaziamento do estômago por conta própria. Somada ao remédio, prolonga a plenitude e o enjoo.
  • Açúcar, doces e ultraprocessados. Pioram o enjoo em muita gente e, em alguns, provocam diarreia.
  • Pimenta e comida muito condimentada. Pioram a azia.
  • Álcool. Irrita o estômago, piora o refluxo, desidrata e, em excesso, causa pancreatite.
  • Refrigerante e bebida com gás. Aumentam a distensão e o arroto.

A lista vale para a fase de adaptação, não para a vida toda. Costumam ser bem tolerados comida simples, cozida, assada ou grelhada, carne magra, frango, peixe, ovo, arroz, batata, legumes cozidos e frutas em porção moderada.

Água, a parte que mais se esquece

O remédio reduz a fome e, junto, a vontade de beber. Parte da água do dia vem da comida, e quem come metade bebe menos sem notar. A desidratação prende o intestino, dá tontura e cansaço e, com vômito ou diarreia, pode comprometer os rins. A bula desses remédios traz esse alerta: lesão renal aguda foi descrita em pessoas que desidrataram por perda gastrointestinal.

  • Beba com horário, em goles pequenos e frequentes, e não só quando sentir sede.
  • Use a cor da urina como guia. Escura e em pouca quantidade indica que falta água.
  • Com diarreia ou vômito, troque parte da água por soro de reidratação oral, que repõe sódio e potássio.

Fibra, aliada no intestino preso e inimiga na plenitude

A fibra aparece em quase toda orientação para prisão de ventre. Com esses remédios, ela pede critério.

A fibra insolúvel, a do farelo, das cascas, das folhas cruas em grande quantidade e dos grãos integrais, aumenta o volume do bolo alimentar. Isso ajuda o intestino, mas também ocupa o estômago. Em quem já tem plenitude e distensão importantes, uma carga grande de fibra piora os dois.

O caminho é o meio-termo. Frutas, legumes e verduras em porções normais, preferindo fibras mais macias, como mamão, ameixa, aveia e legumes cozidos. Aumento lento e sempre com água. Se o intestino continuar preso, é mais eficaz acrescentar um laxante do que empilhar fibra.

A diretriz da American Gastroenterological Association e do American College of Gastroenterology sobre constipação crônica, de Chang e colaboradores, de 2023, faz a mesma distinção em outro contexto: recomendação forte para o polietilenoglicol e apenas condicional para a fibra. A diretriz não foi feita para quem usa esses remédios, mas o princípio vale.

Enjoo e vômito, o que ajuda

  • Fique sentado ou em pé depois de comer. Deitar logo após a refeição piora o enjoo e o refluxo.
  • Coma algo seco e simples quando o enjoo vier, como bolacha de água e sal ou torrada, em pouca quantidade.
  • Gengibre, em chá ou em pedaços, alivia algumas pessoas. A evidência é fraca, mas o risco é baixo.

Quando isso não basta, o médico pode prescrever um antiemético para os dias piores. Nos estudos com tirzepatida, esse uso se concentrou na fase de aumento de dose. A ondansetrona é uma opção frequente, mas prende o intestino, o que conta em quem já tem constipação, e pode alterar o ritmo do coração em quem tem arritmia ou usa outros remédios com esse efeito. Metoclopramida e domperidona, comuns em farmácia, também não devem ser tomadas por conta própria: têm efeitos no coração e no sistema nervoso e não resolvem a causa do enjoo.

Vômito ocasional, logo após uma refeição grande, faz parte da adaptação. Vômitos repetidos, que impedem de manter até a água, não fazem. Esse é o limite.

Refluxo, azia e arroto com cheiro de ovo

Com a comida parada por mais tempo, o estômago fica distendido por mais horas. A distensão facilita a abertura da válvula entre o esôfago e o estômago, e o conteúdo tem mais chance de voltar. O resultado é azia, queimação atrás do osso do peito, gosto amargo, regurgitação e arrotos.

O arroto com cheiro de ovo podre provavelmente vem da fermentação do alimento que ficou tempo demais no estômago. É desagradável e, isolado, não indica doença. Se vier junto com vômito de comida ingerida horas antes ou plenitude que não cede, merece avaliação.

As medidas são as clássicas do refluxo, com peso maior no tamanho da refeição: jantar leve pelo menos três horas antes de deitar, cabeceira elevada com calço sob os pés da cama, e menos álcool, café, chocolate e fritura à noite. Se o sintoma persistir, o médico pode associar um inibidor de bomba de prótons por um período.

Quem já tinha refluxo gastroesofágico ou hérnia de hiato antes da caneta costuma sentir mais. Nesses casos, a dose deve subir mais devagar, e às vezes a dose que controla o peso sem piorar o refluxo é menor que a máxima. Para quem já tinha refluxo difícil, a avaliação de refluxo e hérnia de hiato entra no planejamento.

Refluxo novo com dificuldade ou dor para engolir, vômito com sangue ou emagrecimento fora do esperado não deve ser atribuído ao remédio. Aqui o exame indicado é a endoscopia digestiva alta.

Intestino preso, melhor prevenir desde o começo

A prisão de ventre é o sintoma que mais dura e o que menos se relata, porque vem aos poucos. O intestino fica mais lento, a pessoa come e bebe menos, e as fezes endurecem. Por isso a proposta é agir antes que ela se instale.

  • Água suficiente. Sem ela, nenhuma outra medida funciona direito.
  • Atividade física diária. Caminhar estimula o intestino.
  • Horário fixo. O intestino tem mais atividade depois do café da manhã. Sente-se no vaso nesse horário, sem pressa.
  • Apoio para os pés. Um banquinho que deixe os joelhos acima do quadril facilita a evacuação.
  • Não segure a vontade. Segurar deixa as fezes mais secas.

Se em uma ou duas semanas o intestino não normalizar, o passo seguinte é o laxante. O macrogol, também chamado polietilenoglicol ou PEG, é um laxante osmótico: puxa água para dentro das fezes e as amolece. Tem recomendação forte na diretriz de 2023, efeito previsível e dose ajustável conforme a resposta, sempre com orientação médica. Laxantes estimulantes, como bisacodil e sene, ficam como resgate ocasional.

O esforço e as fezes duras são as principais causas de fissura anal e de piora das hemorroidas com sangramento. Tratar o intestino cedo evita os dois. O texto sobre prisão de ventre e seu tratamento detalha as opções.

Intestino preso é fezes duras e pouco frequentes, com gases saindo e sem vômito. Barriga que vai distendendo, sem eliminar gases nem fezes, com cólica e vômito, é outra coisa. Pode ser obstrução intestinal e pede avaliação no mesmo dia.

Diarreia, reidratar primeiro

A diarreia costuma aparecer nos dias seguintes à aplicação e durar pouco.

  • Reponha água e sais. Soro de reidratação oral em pequenos goles é a medida principal. Isotônico esportivo não substitui o soro, porque tem açúcar demais e sal de menos.
  • Dieta leve até melhorar. Arroz, batata, banana, frango cozido, torrada.
  • Evite por alguns dias café, álcool, leite e derivados, fritura, doces e adoçantes como sorbitol e xilitol, que soltam o intestino.
  • Antidiarreico só com orientação. A loperamida tem lugar em situações específicas, mas não deve ser tomada por conta própria, principalmente com febre ou sangue nas fezes.

Diarreia com sangue, febre, dor forte, desidratação ou que se prolonga tem outras causas possíveis e não deve ser atribuída à caneta sem avaliação. O texto sobre diarreia e suas causas ajuda a entender o que investigar.

Quem usa anticoncepcional em comprimido precisa saber que vômito, diarreia e o próprio atraso do estômago podem reduzir a absorção da pílula. Na bula da tirzepatida, a orientação é associar preservativo ou usar método não oral nas 4 semanas seguintes ao início e a cada aumento de dose. Converse com quem prescreveu.

Subir a dose não é automático

O aumento a cada quatro semanas é o esquema dos estudos e da bula. Ele é um calendário máximo, não uma obrigação.

Os próprios estudos previam flexibilidade. Na análise de Wharton, 12,5% das pessoas em semaglutida reduziram a dose ou pausaram temporariamente por sintomas digestivos, e 74% delas terminaram o estudo ainda em tratamento. No STEP 4, das 902 pessoas que iniciaram o remédio, 99, ou 11%, não chegaram à dose-alvo em 20 semanas, e os efeitos adversos foram o motivo mais comum.

A regra prática é direta. Se na data de subir a dose você ainda tem enjoo, refluxo diário, vômito, intestino preso não resolvido ou está comendo e bebendo pouco demais, a dose não deve subir só porque passaram quatro semanas. Converse com quem prescreveu. Ficar mais algumas semanas na mesma dose dá tempo para a adaptação e raramente compromete o resultado.

Também não existe obrigação de chegar à dose máxima. A dose certa é a menor que atinge o objetivo com sintomas toleráveis.

Versões manipuladas ou sem registro têm dose incerta. Erro de dose é causa conhecida de vômito intenso e desidratação.

Quando o médico muda o plano

  • Escalonar mais devagar, ficando mais tempo em cada dose.
  • Voltar para a dose anterior e tentar subir de novo mais tarde.
  • Remédios de apoio por período curto, como antiemético, inibidor de ácido e laxante osmótico.
  • Pausar em caso de quadro intenso. Depois de uma pausa longa, em geral de mais de duas semanas, a retomada costuma exigir recomeçar em dose mais baixa, a critério de quem prescreveu.
  • Trocar de molécula. A tolerância varia de pessoa para pessoa, e quem não tolera um remédio pode tolerar outro.

Existe também uma minoria que não tolera. Nos estudos STEP 1 a 3, 4,3% abandonaram a semaglutida por efeito gastrointestinal, contra 0,7% no placebo. Nos estudos SURMOUNT 1 a 4, o abandono por esse motivo variou de 1,0% a 10,5% entre os grupos com tirzepatida. Para essas pessoas, insistir não faz sentido, e o tratamento da obesidade segue por outro caminho.

Proteína e músculo

Comer pouco por meses tem um custo que não aparece no enjoo. Parte do peso perdido é massa magra, que inclui músculo. A revisão de Neeland e colaboradores, de 2024, mostra números muito variáveis: em alguns estudos, a massa magra respondeu por 15% ou menos do peso perdido; em outros, por 40% a 60%.

Duas medidas protegem o músculo. Comece cada refeição pequena pela proteína, como carne, ovo, peixe, frango, leguminosas ou laticínios. E faça exercício de força duas ou mais vezes por semana. Quem tem mais idade ou pouca massa muscular se beneficia de acompanhamento com nutricionista.

O sintoma nem sempre é do remédio

É aqui que o manejo mais falha. Quem usa a caneta tende a atribuir a ela todo sintoma digestivo. Na maioria das vezes está certo. Mas esses remédios aumentam o risco de algumas doenças que começam com sintomas parecidos, e outras doenças aparecem por coincidência.

Vesícula

O emagrecimento rápido favorece cálculos, e esses remédios reduzem a contração da vesícula. A meta-análise de He e colaboradores, de 2022, reuniu 76 ensaios com 103.371 pessoas: o uso de agonistas de GLP-1 aumentou em 37% o risco de doença da vesícula e das vias biliares, e nos estudos de emagrecimento o risco mais que dobrou. A crise dá dor do lado direito, abaixo das costelas, ou na boca do estômago, depois de comer, às vezes irradiando para as costas. O texto sobre Mounjaro, Ozempic e pedra na vesícula aprofunda o tema, e a colecistite aguda é a complicação a não deixar passar. Quando há indicação, o tratamento é a cirurgia de vesícula.

Pâncreas

A pancreatite aguda dá dor forte e contínua na parte alta da barriga, muitas vezes em faixa ou para as costas, com vômitos. A relação com esses remédios é debatida. Sodhi e colaboradores, em 2023, compararam usuários de agonistas de GLP-1 para emagrecer com usuários de bupropiona com naltrexona e encontraram risco maior de pancreatite, obstrução intestinal e gastroparesia. Um estudo de Liu e colaboradores, de 2025, repetiu a comparação em outra base de dados e levou em conta o índice de massa corporal: manteve o risco maior de gastroparesia, mas não confirmou de forma conclusiva o de pancreatite e o de obstrução. A complicação é rara, a associação é incerta, e a dor com esse padrão precisa ser avaliada de qualquer forma.

Intestino e estômago

Obstrução intestinal é rara e dá barriga distendida, cólica, vômito e parada de gases e fezes. Em algumas pessoas o esvaziamento do estômago fica lento demais, com vômito de comida de horas antes, plenitude que não cede e perda de peso acima do esperado. As duas situações pedem avaliação e, muitas vezes, mudança no remédio.

O que não tem relação com a caneta

Úlcera, infecção intestinal, doença inflamatória do intestino e câncer do aparelho digestivo continuam existindo em quem usa o remédio. Sintoma novo em dose estável, sangue nas fezes, anemia e emagrecimento além do esperado precisam ser investigados como seriam em qualquer pessoa.

Sinais de alarme que não pertencem ao efeito esperado

Procure atendimento no mesmo dia, e não aplique a próxima dose antes de ser avaliado, se houver:

  • dor abdominal forte, contínua ou que piora, principalmente na parte alta da barriga irradiando para as costas;
  • vômitos repetidos, ou vômito que impede de manter até a água;
  • sinais de desidratação, como urina muito escura ou escassa, tontura ao levantar e fraqueza intensa;
  • barriga cada vez mais distendida, sem eliminar gases nem fezes;
  • dor do lado direito, abaixo das costelas, com febre ou calafrio;
  • pele ou olhos amarelados, urina cor de coca-cola ou fezes claras, que indicam icterícia;
  • sangue nas fezes, fezes pretas ou vômito com sangue;
  • dificuldade ou dor para engolir (avaliação breve; no mesmo dia se não passar nem líquido);
  • em quem tem diabetes e usa insulina ou sulfonilureia, não conseguir se alimentar, pelo risco de hipoglicemia.

Nenhum desses sinais deve ser rotulado como "efeito do remédio" sem exame. Pancreatite, colecistite, obstrução intestinal, lesão renal por desidratação e esvaziamento gástrico muito lento são tratáveis, mas precisam ser reconhecidos a tempo.

Endoscopia, colonoscopia e cirurgia

O estômago pode conter comida mesmo depois do jejum habitual. Sob sedação ou anestesia, esse conteúdo pode voltar e ser aspirado para o pulmão, complicação rara, mas grave.

Sen e colaboradores, no JAMA Surgery em 2024, fizeram ultrassom do estômago em 124 pessoas que tinham cumprido o jejum antes de procedimentos com anestesia. Havia conteúdo residual significativo em 56% de quem usava agonista de GLP-1 semanal e em 19% de quem não usava. Suspender o remédio por mais dias não se associou a menos resíduo.

As recomendações atuais não dizem exatamente a mesma coisa.

  • Orientação multissociedade de 2024, de Kindel e colaboradores, elaborada por cinco sociedades de gastroenterologia, anestesia, cirurgia bariátrica, cirurgia endoscópica e cuidado perioperatório em obesidade. Recomenda manter o remédio na maioria e decidir caso a caso. Considera de maior risco a fase de aumento de dose, a dose alta, a formulação semanal, a presença de sintomas digestivos e outras doenças que atrasam o estômago. Para esses, sugere dieta líquida nas 24 horas anteriores. Se a decisão for suspender, sugere parar no dia do procedimento para os remédios diários e uma semana antes para os semanais.
  • Consenso SPAQI de 2025, de Oprea e colaboradores, no British Journal of Anaesthesia. Também recomenda manter o remédio em quem não tem sintomas digestivos significativos, mas sugere 24 horas de dieta de líquidos claros antes do procedimento para todos os usuários. Quem tem enjoo intenso, vômito ou não consegue se alimentar deve ajustar dieta e remédio antes de um procedimento eletivo.

A divergência é sobre quem faz a dieta líquida, só quem tem mais risco ou todos. O ponto em comum pesa mais: nenhuma das duas manda suspender o remédio para todo mundo, e as duas valorizam o sintoma do dia. Quem chega ao procedimento com enjoo, plenitude ou vômito é quem tem mais risco.

Avise sempre o endoscopista, o anestesista e o cirurgião que usa o remédio, com nome, dose e dia da última aplicação, e siga a orientação do serviço. Na colonoscopia, a dieta líquida do preparo já cobre boa parte da recomendação, como explica o texto sobre como se preparar para a colonoscopia. Os detalhes de jejum e pausa antes de operar estão em Ozempic, Mounjaro e cirurgia.

O que muda na conduta e o que não muda nada

Muda

  • Enjoo, refluxo ou pouca ingestão na data de subir a dose. A dose não sobe até melhorar.
  • Intestino preso por mais de uma a duas semanas. Entra laxante osmótico, sem esperar a fissura ou a hemorroida.
  • Diarreia ou vômito com urina escura. Soro de reidratação e contato com o médico.
  • Refluxo antigo que piorou. Aumento de dose mais lento, remédio para o ácido e avaliação do refluxo.
  • Procedimento com sedação marcado. Avisar a equipe e seguir a orientação de dieta líquida e, se indicada, de pausa.
  • Qualquer sinal de alarme. Avaliação no mesmo dia.

Não muda nada

  • Enjoo leve que melhora antes da próxima aplicação. É o padrão esperado.
  • Arroto com cheiro de ovo, sem dor, sem vômito e sem plenitude persistente. Desagradável, mas não é sinal de doença.
  • Comer bem menos que antes. É o efeito desejado, desde que haja proteína e líquido suficientes.
  • Não ter enjoo. Não quer dizer que o remédio não funciona.
  • Não ter chegado à dose máxima. Se o resultado é bom na dose atual, não há motivo para subir.

O que diz a pesquisa recente

As frequências vêm do STEP 1 (Wilding e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2021) e do SURMOUNT-1 (Jastreboff e colaboradores, mesma revista, 2022), ambos financiados pelos fabricantes. A duração de cada sintoma, a concentração na fase de aumento de dose e a pequena participação do enjoo na perda de peso vêm das análises de Wharton e colaboradores (Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022) e de Rubino e colaboradores (mesma revista, 2025). As medidas práticas estão em Wharton e colaboradores (Postgraduate Medicine, 2022).

A taquifilaxia vem de dois experimentos pequenos, de Nauck e colaboradores (Diabetes, 2011) e Umapathysivam e colaboradores (Diabetes, 2014), discutidos nas revisões de Jalleh e colaboradores no Lancet Gastroenterology and Hepatology e no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, ambas de 2024. A ação no cérebro está em Douros e colaboradores (Frontiers in Endocrinology, 2025).

Sobre complicações, a meta-análise de He e colaboradores (JAMA Internal Medicine, 2022) sustenta o risco de vesícula. Sodhi e colaboradores (JAMA, 2023) levantaram o alerta sobre pancreatite, obstrução e gastroparesia, e Liu e colaboradores (Alimentary Pharmacology and Therapeutics, 2025) mostraram que parte desse sinal se explica pelo peso de quem usa o remédio. Para procedimentos, os dados são de Sen e colaboradores (JAMA Surgery, 2024), e as orientações vigentes são a multissociedade de Kindel e colaboradores (2024) e o consenso SPAQI de Oprea e colaboradores (British Journal of Anaesthesia, 2025). Completam a lista a diretriz de constipação de Chang e colaboradores (2023) e a revisão sobre massa magra de Neeland e colaboradores (2024).

Resumo prático

  • Enjoo, plenitude, refluxo, intestino preso e diarreia são os efeitos mais comuns. Nos estudos, 44% tiveram náusea com semaglutida e 25% a 33% com tirzepatida.
  • Quase todos são leves e curtos e se concentram nas semanas de aumento de dose. A prisão de ventre é a que mais dura.
  • O remédio não encolhe o estômago. Atrasa o esvaziamento e antecipa a saciedade. Refeição grande é o principal gatilho. Reduza o tamanho das refeições que já existem, sem precisar comer oito vezes por dia.
  • No começo, corte gordura, fritura, açúcar, álcool e gás, beba água com horário e trate o intestino preso cedo, de preferência com macrogol em vez de excesso de fibra.
  • A dose não sobe enquanto houver enjoo, refluxo ou pouca ingestão.
  • Dor forte, vômitos repetidos, incapacidade de beber, barriga distendida sem gases, febre ou pele amarelada não são efeito esperado e pedem avaliação no mesmo dia.
  • Antes de endoscopia, colonoscopia ou cirurgia, avise a equipe. A tendência atual é manter o remédio na maioria e usar dieta líquida nas 24 horas anteriores, pelo menos em quem tem mais risco.

Se você usa um desses remédios e não sabe em qual grupo está, ou tem um sintoma que não se encaixa no que foi descrito aqui, agende uma avaliação com o Dr. Daniel Szor. Na maior parte das vezes o ajuste é simples e o tratamento continua.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Não altere a dose nem suspenda o remédio sem orientação de quem o prescreveu.

Referências

  1. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, Davies M, Van Gaal LF, Lingvay I, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. doi:10.1056/NEJMoa2032183. PMID: 33567185
  2. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, Wharton S, Connery L, Alves B, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205-16. doi:10.1056/NEJMoa2206038. PMID: 35658024
  3. Wharton S, Calanna S, Davies M, Dicker D, Goldman B, Lingvay I, et al. Gastrointestinal tolerability of once-weekly semaglutide 2.4 mg in adults with overweight or obesity, and the relationship between gastrointestinal adverse events and weight loss. Diabetes Obes Metab. 2022;24(1):94-105. doi:10.1111/dom.14551. PMID: 34514682
  4. Rubino DM, Pedersen SD, Connery L, Cao D, Chigutsa F, Stefanski A, et al. Gastrointestinal tolerability and weight reduction associated with tirzepatide in adults with obesity or overweight with and without type 2 diabetes in the SURMOUNT-1 to -4 trials. Diabetes Obes Metab. 2025;27(4):1826-35. doi:10.1111/dom.16176. PMID: 39789843
  5. Wharton S, Davies M, Dicker D, Lingvay I, Mosenzon O, Rubino DM, et al. Managing the gastrointestinal side effects of GLP-1 receptor agonists in obesity: recommendations for clinical practice. Postgrad Med. 2022;134(1):14-9. doi:10.1080/00325481.2021.2002616. PMID: 34775881
  6. Nauck MA, Kemmeries G, Holst JJ, Meier JJ. Rapid tachyphylaxis of the glucagon-like peptide 1-induced deceleration of gastric emptying in humans. Diabetes. 2011;60(5):1561-5. doi:10.2337/db10-0474. PMID: 21430088
  7. Umapathysivam MM, Lee MY, Jones KL, Annink CE, Cousins CE, Trahair LG, et al. Comparative effects of prolonged and intermittent stimulation of the glucagon-like peptide 1 receptor on gastric emptying and glycemia. Diabetes. 2014;63(2):785-90. doi:10.2337/db13-0893. PMID: 24089511
  8. Jalleh RJ, Rayner CK, Hausken T, Jones KL, Camilleri M, Horowitz M. Gastrointestinal effects of GLP-1 receptor agonists: mechanisms, management, and future directions. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2024;9(10):957-64. doi:10.1016/S2468-1253(24)00188-2. PMID: 39096914
  9. Jalleh RJ, Plummer MP, Marathe CS, Umapathysivam MM, Quast DR, Rayner CK, et al. Clinical Consequences of Delayed Gastric Emptying With GLP-1 Receptor Agonists and Tirzepatide. J Clin Endocrinol Metab. 2024;110(1):1-15. doi:10.1210/clinem/dgae719. PMID: 39418085
  10. Douros JD, Flak JN, Knerr PJ. The agony and the efficacy: central mechanisms of GLP-1 induced adverse events and their mitigation by GIP. Front Endocrinol (Lausanne). 2025;16:1530985. doi:10.3389/fendo.2025.1530985. PMID: 39963285
  11. He L, Wang J, Ping F, Yang N, Huang J, Li Y, et al. Association of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Use With Risk of Gallbladder and Biliary Diseases: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Clinical Trials. JAMA Intern Med. 2022;182(5):513-9. doi:10.1001/jamainternmed.2022.0338. PMID: 35344001
  12. Sodhi M, Rezaeianzadeh R, Kezouh A, Etminan M. Risk of Gastrointestinal Adverse Events Associated With Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists for Weight Loss. JAMA. 2023;330(18):1795-7. doi:10.1001/jama.2023.19574. PMID: 37796527
  13. Liu BD, Veccia D, Sun Y, Song G. Some Risks of Gastrointestinal Adverse Events Associated With Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists Are Likely Explained by BMI. Aliment Pharmacol Ther. 2025;62(1):77-80. doi:10.1111/apt.70190. PMID: 40356540
  14. Sen S, Potnuru PP, Hernandez N, Goehl C, Praestholm C, Sridhar S, et al. Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Use and Residual Gastric Content Before Anesthesia. JAMA Surg. 2024;159(6):660-7. doi:10.1001/jamasurg.2024.0111. PMID: 38446466
  15. Kindel TL, Wang AY, Wadhwa A, Schulman AR, Sharaiha RZ, Kroh M, et al. Multisociety clinical practice guidance for the safe use of glucagon-like peptide-1 receptor agonists in the perioperative period. Surg Obes Relat Dis. 2024;20(12):1183-6. doi:10.1016/j.soard.2024.08.033. PMID: 39482213
  16. Oprea AD, Ostapenko LJ, Sweitzer B, Selzer A, Irizarry-Alvarado JM, Hurtado Andrade MD, et al. Perioperative management of patients taking glucagon-like peptide 1 receptor agonists: Society for Perioperative Assessment and Quality Improvement (SPAQI) multidisciplinary consensus statement. Br J Anaesth. 2025;135(1):48-78. doi:10.1016/j.bja.2025.04.001. PMID: 40379536
  17. Chang L, Chey WD, Imdad A, Almario CV, Bharucha AE, Diem S, et al. American Gastroenterological Association-American College of Gastroenterology Clinical Practice Guideline: Pharmacological Management of Chronic Idiopathic Constipation. Gastroenterology. 2023;164(7):1086-106. doi:10.1053/j.gastro.2023.03.214. PMID: 37211380
  18. Neeland IJ, Linge J, Birkenfeld AL. Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies. Diabetes Obes Metab. 2024;26 Suppl 4:16-27. doi:10.1111/dom.15728. PMID: 38937282

Perguntas frequentes

Enjoo com Mounjaro ou Ozempic passa?
Na maioria das pessoas, sim. Nos estudos com semaglutida para obesidade, a frequência de náusea subiu durante as 16 semanas de aumento de dose, atingiu o pico por volta da semana 20 e caiu depois disso. Cada episódio durou pouco, com mediana de 8 dias. Com a tirzepatida o padrão foi o mesmo: os sintomas gastrointestinais apareceram principalmente nas fases de aumento de dose e diminuíram com o tempo. Uma parte da explicação é fisiológica. O efeito do remédio sobre o esvaziamento do estômago perde força com o uso contínuo, fenômeno chamado taquifilaxia. Uma minoria continua com enjoo mesmo depois de meses, e nesses casos o plano precisa ser ajustado com o médico.
O que comer para não ter enjoo com Ozempic?
Mais importante do que o alimento é o tamanho da refeição. O estômago esvazia mais devagar e a saciedade chega antes, então um prato do tamanho de antes distende o estômago e provoca enjoo, plenitude e refluxo. Reduza a porção das refeições que você já faz, coma devagar e pare no primeiro sinal de estar satisfeito. Nas primeiras semanas e depois de cada aumento de dose, prefira comida simples, cozida ou grelhada, e evite fritura, gordura em excesso, doces, ultraprocessados, pimenta e álcool. Beba líquidos ao longo do dia, fora das refeições. Não é necessário fazer seis ou oito refeições por dia. Na maioria das vezes, basta diminuir as que já existem.
Mounjaro dá prisão de ventre? O que fazer?
Dá, e com frequência. No SURMOUNT-1, entre 12% e 17% das pessoas em tirzepatida tiveram constipação, conforme a dose. Com a semaglutida, a constipação dura mais que os outros sintomas, com mediana de 47 dias nos estudos STEP. O melhor é prevenir desde o início: água suficiente, caminhada diária, horário fixo para ir ao banheiro e um apoio para os pés no vaso. Se isso não bastar, o laxante osmótico macrogol, ou polietilenoglicol, tem recomendação forte na diretriz americana de constipação e costuma ser mais previsível do que aumentar muito a fibra. Barriga distendida, sem eliminar gases e com vômito, não é prisão de ventre comum e precisa de avaliação.
Ozempic dá refluxo e arroto com cheiro de ovo?
Pode dar. Com o esvaziamento do estômago mais lento, a comida fica mais tempo parada ali, o estômago distende e o conteúdo tem mais chance de voltar para o esôfago. Isso aparece como azia, queimação, regurgitação e arrotos, às vezes com cheiro de ovo. A conduta é a mesma do refluxo comum, com mais ênfase no tamanho da refeição: pratos menores, jantar leve e cedo, não deitar nas três horas seguintes e elevar a cabeceira da cama. Se o sintoma persistir, o médico pode associar um remédio para reduzir o ácido. Quem já tinha refluxo ou hérnia de hiato costuma sentir mais, e isso deve pesar na decisão de subir a dose.
Diarreia com Mounjaro, o que fazer?
A diarreia costuma ser curta. Nos estudos com semaglutida, cada episódio durou em mediana 3 dias. O principal é repor água e sais: beba em pequenos goles ao longo do dia e use soro de reidratação oral quando as evacuações forem frequentes. Faça uma dieta leve e evite, até melhorar, gordura, café, álcool, leite e adoçantes do tipo sorbitol. Antidiarreico só deve ser usado com orientação médica. Diarreia com sangue, febre, dor forte, sinais de desidratação ou que dura mais de alguns dias não deve ser atribuída ao remédio sem avaliação.
Posso não aumentar a dose do Mounjaro se ainda estou enjoado?
Pode e, em geral, deve, sempre combinando com quem prescreveu. O esquema de aumento a cada 4 semanas vem dos estudos, mas os próprios estudos permitiram ficar mais tempo numa dose ou voltar para a dose anterior quando o sintoma atrapalhava. Nos estudos STEP, 12,5% das pessoas em semaglutida precisaram reduzir a dose ou pausar temporariamente, e 74% delas terminaram o estudo ainda em tratamento. Subir a dose com enjoo, refluxo ou comendo e bebendo pouco tende a piorar o quadro. Esperar mais algumas semanas na mesma dose raramente compromete o resultado.
Quando a dor de barriga com Ozempic é perigosa?
Efeito esperado é enjoo, plenitude, arroto, alteração do intestino e um desconforto leve que melhora. Dor forte, contínua ou que piora não entra nessa lista. Dor na boca do estômago que vai para as costas, com vômitos, pode ser pancreatite. Dor do lado direito, abaixo das costelas, principalmente com febre ou pele e olhos amarelados, aponta para a vesícula. Barriga cada vez mais distendida, sem eliminar gases e com vômitos, sugere obstrução intestinal. Vômitos que impedem de manter líquidos podem levar a desidratação e lesão dos rins. Todas essas situações pedem avaliação no mesmo dia, e ninguém deve rotulá-las como efeito do remédio sem examinar.
Preciso parar o Ozempic antes da endoscopia ou da cirurgia?
Não necessariamente, e a decisão é individual. A orientação conjunta de cinco sociedades de gastroenterologia, anestesia e cirurgia, publicada em 2024, recomenda manter o remédio na maioria das pessoas e identificar quem tem mais risco de estômago cheio: fase de aumento de dose, dose alta, uso semanal e presença de enjoo, vômito, plenitude ou prisão de ventre. Para esses, sugere dieta líquida nas 24 horas anteriores e, se for decidido suspender, parar uma semana antes no caso das canetas semanais. Um consenso de 2025 foi além e sugere dieta de líquidos claros nas 24 horas anteriores para todos que usam o remédio. Avise sempre a equipe e siga a orientação do seu serviço.

Ficou com dúvidas?

Entre em contato para agendar uma consulta com o Dr. Daniel Szor no Hospital Albert Einstein — Unid. Perdizes.

Agendar consulta