O que são os remédios GLP-1?
Os chamados análogos de GLP-1 são uma classe de medicamentos que se tornou extremamente popular nos últimos anos, tanto para o controle do diabetes tipo 2 quanto para o emagrecimento. Entre os mais conhecidos estão a semaglutida (Ozempic e Wegovy), a tirzepatida (Mounjaro — que também age em outro receptor, o GIP) e a liraglutida (Saxenda e Victoza).
Eles funcionam imitando um hormônio natural do intestino que aumenta a saciedade, reduz o apetite e retarda o esvaziamento do estômago. É justamente esse efeito sobre o aparelho digestivo que torna o tema relevante para quem vai passar por uma cirurgia ou um exame com sedação.
Por que isso interessa ao cirurgião do aparelho digestivo?
Há dois pontos principais que conectam esses medicamentos à cirurgia digestiva: o efeito sobre a vesícula biliar e o efeito sobre o esvaziamento do estômago, importante no momento da anestesia.
GLP-1 e cálculos na vesícula
A perda de peso rápida — independentemente da causa — é um fator de risco conhecido para a formação de cálculos na vesícula (pedras). Além disso, os GLP-1 podem reduzir a contração da vesícula e alterar a composição da bile, o que favorece a formação de pedras.
Uma revisão sistemática com meta-análise de ensaios clínicos publicada no JAMA Internal Medicine (2022) reuniu dezenas de estudos e observou que o uso de GLP-1 esteve associado a um aumento do risco de doenças da vesícula e das vias biliares, como cálculos e colecistite (inflamação da vesícula). Esse risco tendeu a ser maior com doses mais altas, uso por mais tempo e quando o objetivo era emagrecimento.
Isso não significa que todo mundo que usa o medicamento vai ter pedra na vesícula — a maioria não terá. Mas vale ficar atento a sinais como dor na parte superior direita da barriga após refeições gordurosas, náuseas ou empachamento, que merecem avaliação médica.
O ponto mais importante: GLP-1, jejum e anestesia
Como esses remédios deixam o estômago mais lento para esvaziar, ele pode continuar com restos de comida ou líquido mesmo depois do jejum habitual antes de uma cirurgia ou endoscopia. Sob anestesia ou sedação, esse conteúdo retido aumenta o risco de aspiração — quando o conteúdo do estômago vai para os pulmões —, uma complicação grave, ainda que rara.
Por isso, sociedades de anestesia passaram a recomendar cautela em quem usa GLP-1, com possíveis ajustes no jejum e, em alguns casos, na suspensão temporária do medicamento antes do procedimento.
O que diz a ciência
Um estudo publicado no JAMA Surgery (2024) avaliou, por meio de ultrassom do estômago, pacientes que seriam submetidos a procedimentos com anestesia e que haviam cumprido normalmente as orientações de jejum. Os pesquisadores observaram que quem usava GLP-1 semanal apresentava, com mais frequência, conteúdo gástrico residual (estômago ainda "cheio") em comparação a quem não usava — apesar do jejum adequado.
Na prática, esse achado reforça por que a equipe que cuida de você precisa saber que você usa GLP-1: pode ser necessário prolongar o jejum, ajustar a anestesia ou reprogramar o procedimento para reduzir o risco. É uma medida de segurança, decidida caso a caso.
O que fazer antes de uma cirurgia ou endoscopia
- Avise sempre o seu cirurgião, o anestesista e o endoscopista de que usa GLP-1, informando o nome do remédio e quando foi a última dose.
- Não interrompa o medicamento por conta própria. A eventual pausa antes do procedimento deve ser orientada pela equipe — especialmente em pessoas com diabetes, que precisam de cuidado adicional com o controle da glicemia.
- Siga rigorosamente as orientações de jejum que você receber, que podem ser diferentes do habitual.
- Em caso de dúvida, converse com quem prescreveu o medicamento e com o cirurgião antes de marcar a cirurgia.
Quando procurar avaliação
Vale agendar uma avaliação se você usa GLP-1 e apresenta dor abdominal recorrente do lado direito superior, náuseas ou sinais sugestivos de problema na vesícula — ou se vai passar por uma cirurgia ou endoscopia e tem dúvidas sobre como proceder com o medicamento.
Conclusão
Os medicamentos GLP-1 trouxeram avanços importantes para o tratamento do diabetes e da obesidade, mas exigem atenção especial em quem vai operar ou fazer exames sob sedação. Os dois cuidados centrais são o acompanhamento da vesícula e a comunicação clara com a equipe cirúrgica e de anestesia. Com informação e planejamento, é possível usar esses remédios e realizar procedimentos com segurança.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O tratamento deve ser sempre individualizado.
