Dr. Daniel Szor
Como saber se a dor na barriga é apendicite
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Como saber se a dor na barriga é apendicite

30 de outubro de 2026 · leitura de 23 min

Resposta rápida

A apendicite costuma seguir uma sequência. A dor começa vaga, ao redor do umbigo ou na boca do estômago, e ao longo de algumas horas desce e se fixa no lado direito, embaixo da barriga, num ponto que dá para apontar com um dedo. A fome desaparece. Náusea ou vômito vêm depois da dor, não antes. A febre, quando aparece, é baixa no início. A dor piora ao andar, tossir ou passar por uma lombada de carro. Vômito que começa antes da dor, diarreia volumosa desde o início e dor que vai e volta há meses falam contra apendicite. Nenhum sinal isolado confirma ou descarta a doença. O médico junta a história, o exame da barriga, o hemograma e a proteína C reativa, muitas vezes num escore, e pede ultrassom ou tomografia quando há dúvida. Em mulheres em idade fértil, o teste de gravidez é obrigatório. O risco de perfuração fica em até 2% nas primeiras 36 horas de sintomas e sobe cerca de 5% a cada 12 horas depois disso. Por isso, dor que se fixa no lado direito e piora em vez de melhorar pede avaliação no mesmo dia, sem laxante e sem analgésico forte em casa para ver se passa. Crianças pequenas, gestantes, idosos e pessoas imunossuprimidas podem ter sintomas atípicos e merecem avaliação mais cedo.

A dor começou ontem à noite, meio vaga, perto do umbigo. Parecia algo que você comeu. De madrugada veio um enjoo, e o café da manhã não desceu. Agora a dor mudou de lugar. Está do lado direito, embaixo, num ponto que dá para apontar com o dedo, e incomoda quando você anda ou tosse. A busca no celular sugere apendicite.

Este texto mostra como a apendicite começa e evolui, onde dói, quem tem sintomas que enganam, o que mais pode causar dor no lado direito, como o médico confirma e quanto tempo dá para esperar. Ao final, você deve saber em qual de três grupos está. O que precisa ir ao pronto-socorro agora, o que precisa de avaliação hoje e o que provavelmente tem outra causa.

O apêndice e por que ele inflama

O apêndice é um tubo fino, fechado na ponta, que sai do ceco, a primeira parte do intestino grosso. O ceco fica no lado direito, embaixo da barriga. Por isso a dor da apendicite, quando se localiza, costuma ficar ali.

A apendicite começa quando a saída do apêndice entope. O tampão pode ser um pedacinho de fezes endurecidas, o fecalito, ou o inchaço do tecido de defesa da parede do apêndice. Com a saída fechada, a pressão sobe, as bactérias se multiplicam e a parede inflama. Se nada é feito, a parede pode romper. É a perfuração. O texto sobre apendicite aguda resume esse mecanismo.

É uma doença comum. Um estudo americano estimou o risco de ter apendicite ao longo da vida em 8,6% para homens e 6,7% para mulheres, com pico entre 10 e 19 anos. Mas ela acontece em qualquer idade.

A sequência típica

O que mais ajuda a reconhecer a apendicite é a ordem em que os sintomas aparecem. Uma meta-análise de 24 estudos mostrou que a migração da dor, os sinais de irritação do peritônio e os marcadores de inflamação no sangue são os elementos que mais separam apendicite de outras causas. Cada um, isolado, tem pouco valor. Combinados, ajudam mais.

Primeiro, dor vaga no meio da barriga

A dor começa mal definida, ao redor do umbigo ou na boca do estômago. Muita gente descreve como peso, cólica leve ou gases. Nessa fase só o apêndice está inflamado, e os nervos dele levam a dor para o meio da barriga, sem lugar preciso.

Depois, a fome some e vem o enjoo

A perda de apetite é das queixas mais constantes. Náusea e um ou dois vômitos são comuns, mas aparecem depois que a dor começou. Uma revisão publicada no JAMA concluiu que vômito que começa antes da dor torna a apendicite improvável.

A dor desce e se fixa

Ao longo das horas seguintes, em geral ainda no primeiro dia, a inflamação atinge o peritônio, a camada que reveste a barriga por dentro. Os nervos dessa camada localizam bem a dor, que então se fixa no lado direito, embaixo. Essa migração pesa mais a favor da apendicite do que a dor no lado direito desde o início. Em crianças, a revisão do JAMA de 2007 mostrou exatamente isso.

Movimento piora

Com o peritônio inflamado, tudo que sacode a barriga dói. Andar, tossir, espirrar, subir escada, passar por uma lombada de carro. Muitas pessoas chegam ao pronto-socorro curvadas, com a mão no lado direito. Num escore pediátrico de apendicite, a dor ao tossir, pular ou bater de leve na barriga foi o item de maior valor diagnóstico.

Febre baixa

A febre costuma ser baixa no início. Febre acima de 38,9 °C associou-se a risco cerca de 3,6 vezes maior de perfuração num estudo de pacientes operados. Em crianças, febre é o sinal isolado mais útil. Ela aumenta a chance de apendicite em cerca de 3,4 vezes.

Momento O que costuma acontecer O que fazer
Primeiras horas Dor vaga ao redor do umbigo ou na boca do estômago Observar. Não comer pesado, não tomar laxante
Algumas horas depois Perda de apetite, náusea, às vezes vômito, sempre depois da dor Prestar atenção para onde a dor vai
Ainda no primeiro dia Dor fixa no lado direito, embaixo. Piora ao andar, tossir, no carro Pronto-socorro hoje, sem esperar a manhã seguinte
Se já passou de 36 horas Risco de perfuração sobe a cada 12 horas Pronto-socorro sem adiar
Dor espalhada, barriga dura Possível perfuração e peritonite Pronto-socorro imediatamente

Essa é a forma típica, comum em adultos jovens. A falta de um passo não exclui apendicite, e a presença de todos não confirma. O valor da sequência está em dizer quando a suspeita é alta o bastante para sair de casa.

Onde dói e o que o médico procura

No exame, o médico usa sinais com nome próprio. Vale entender o que cada um quer dizer. Mas não tente reproduzi-los com força em casa. Apertar e soltar uma barriga inflamada dói e não muda a conduta.

  • Ponto de McBurney. Imagine uma linha entre o umbigo e o osso saliente da frente do quadril direito. O ponto fica a cerca de um terço do caminho, a partir do osso. É ali que a dor costuma ser mais forte quando o apêndice está na posição habitual.
  • Sinal de Blumberg. O médico aperta devagar o lado direito e solta de uma vez. Se dói mais ao soltar, o peritônio daquele lado está inflamado. Em crianças com suspeita de apendicite, esse sinal triplica a chance do diagnóstico. Hoje muitos médicos pedem para a pessoa tossir, o que dá a mesma informação com menos sofrimento.
  • Sinal de Rovsing. A pressão no lado esquerdo, embaixo, provoca dor no lado direito.
  • Sinal do psoas. Deitado sobre o lado esquerdo, o paciente tem a coxa direita estendida para trás. Dor sugere um apêndice encostado nesse músculo, comum quando ele fica atrás do ceco. O sinal positivo aumenta a probabilidade de apendicite.
  • Sinal do obturador. Com quadril e joelho direitos dobrados, a coxa é girada para dentro. Dor no fundo da pelve sugere apêndice pélvico.
  • Defesa e rigidez. Defesa é a contração involuntária da musculatura ao toque. Rigidez é a barriga dura como tábua. A rigidez sugere inflamação extensa, como na perfuração.

O que fala a favor e o que fala contra

Aproxima da apendicite Afasta da apendicite
Dor que começou no meio e migrou para o lado direito, embaixo Vômitos que começaram antes da dor
Perda de apetite Diarreia volumosa desde o início, outras pessoas da casa com o mesmo quadro
Náusea ou vômito depois da dor Dor que vai e volta há semanas ou meses, sem piora
Piora ao andar, tossir, pular, no carro Cólica fortíssima das costas para a virilha, com agitação
Piora progressiva ao longo de horas Melhora clara e sustentada, com o apetite voltando

A última linha resume o raciocínio. Apendicite é uma doença que piora. Dor que se mantém igual ou melhora ao longo do dia fala contra. Dor que piora a cada hora fala a favor, mesmo com o resto do quadro incompleto.

Quando o apêndice não está no lugar de sempre

O apêndice sai sempre do mesmo ponto do ceco, mas a ponta pode apontar em direções diferentes. Isso muda o lugar da dor.

Atrás do ceco. O intestino fica entre o apêndice e a parede da frente. A dor ao toque na frente é pequena. Ela aparece mais no flanco direito ou nas costas. O sinal do psoas costuma ser positivo, e a pessoa evita esticar a perna direita. Confunde com cólica renal e dor muscular.

Na pelve. A ponta do apêndice fica perto da bexiga e do reto. A dor é mais baixa, acima do púbis. Podem aparecer vontade frequente de urinar, ardência, vontade de evacuar e fezes amolecidas em pouca quantidade. O exame de urina pode vir levemente alterado e levar ao erro de tratar como infecção urinária.

Do lado esquerdo. É rara. Ocorre em quem tem os órgãos invertidos de nascença, em quem o intestino não fez a rotação habitual ou quando um apêndice muito longo cruza a linha do meio. Dor no lado esquerdo, embaixo, depois dos 40 anos aponta muito mais para diverticulite.

Quem tem sintomas que enganam

Em quatro grupos a apendicite foge da sequência típica, o diagnóstico demora e a perfuração é mais frequente. Nesses grupos, a regra é procurar avaliação mais cedo.

Crianças pequenas

Abaixo dos 5 anos, a criança não sabe dizer onde dói. O quadro vem como irritação, recusa de comer, vômitos, febre, barriga distendida, às vezes diarreia. Muitas recusam andar e preferem ficar deitadas quietas. Numa série de 36 crianças com menos de 5 anos operadas por apendicite, 4 não tinham dor abdominal como queixa, e metade chegou à cirurgia com o apêndice perfurado.

Em crianças maiores e adolescentes, o grande imitador é a adenite mesentérica, a inflamação dos gânglios do intestino depois de uma virose, que dói no mesmo lugar. Leucócitos abaixo de 10.000 por microlitro reduzem bastante a chance de apendicite em crianças. Mesmo assim, nenhum sinal resolve sozinho, e o ultrassom tem papel central.

Gestantes

A apendicite também acontece na gravidez. Num estudo americano com mais de 7 milhões de partos, houve cerca de 101 casos por 100.000 nascimentos.

Os livros ensinam que o útero empurra o apêndice para cima e a dor fica mais alta no fim da gestação. A evidência relativiza essa ideia. Num estudo com quase 67 mil partos, a dor no lado direito, embaixo, foi o sintoma mais comum em todos os trimestres, presente em 78% a 86% das gestantes com apendicite. Outro estudo, que mediu a posição do apêndice em gestantes, não encontrou mudança em relação a mulheres não grávidas. A dor pode ficar mais alta ou mais lateral em algumas mulheres, mas não conte com isso para descartar.

O que engana na gestação é o resto do quadro. Náusea e vômito são comuns na gravidez. Os leucócitos sobem normalmente. A febre pode faltar. E o atraso custa mais caro. No estudo americano, 20,3% das gestantes com apendicite tiveram peritonite, e várias complicações maternas foram quase duas vezes mais frequentes do que em mulheres não grávidas.

Idosos

Depois dos 60 anos, a dor pode ser menor, a febre pode faltar e os leucócitos podem não subir. Muitos demoram a procurar atendimento porque a dor parece pouca. Numa série de 214 pacientes acima de 60 anos, 41% chegaram com o apêndice perfurado, e o atraso antes do hospital foi o principal fator associado. A diretriz italiana e da WSES para idosos lembra que, nessa idade, a apendicite pode esconder um tumor do apêndice ou do intestino grosso. Por isso, a diretriz recomenda colonoscopia no acompanhamento de todo idoso com apendicite, operado ou não.

Pessoas imunossuprimidas

Quem usa corticoide em dose alta, faz quimioterapia, é transplantado ou usa imunobiológicos, como na doença inflamatória intestinal, pode ter pouca febre, pouca dor ao toque e exames pouco alterados mesmo com apendicite avançada. A diretriz de 2020 da WSES registra que o escore de Alvarado é menos sensível em pessoas com HIV. Nesse grupo, dor abdominal nova e persistente merece avaliação e, com frequência, tomografia.

O que mais pode ser

A maioria das pessoas que procura o pronto-socorro com dor no lado direito, embaixo, não tem apendicite. As pistas abaixo orientam, mas não fecham diagnóstico.

Condição Quem costuma ter Pistas
Gastroenterite Qualquer idade Vômitos e diarreia antes ou junto da dor, dor difusa em cólica, outras pessoas da casa doentes
Adenite mesentérica Crianças e adolescentes Virose recente, dor mais difusa, exames menos alterados, apêndice normal no ultrassom
Cólica renal Adultos Cólica fortíssima nas costas que desce para a virilha, agitação, sangue na urina
Cisto de ovário roto ou torção Mulheres em idade fértil Início súbito, às vezes na segunda metade do ciclo, após relação ou esforço, náusea intensa na torção
Gravidez ectópica Mulheres em idade fértil Atraso menstrual, sangramento vaginal, tontura, teste de gravidez positivo. É emergência
Doença inflamatória pélvica Mulheres sexualmente ativas Dor nos dois lados, embaixo, corrimento, febre, dor na relação
Diverticulite do lado direito Adultos Dor localizada desde o início, sem migração, apetite muitas vezes preservado
Doença de Crohn do íleo Adolescentes e adultos jovens Dor que se repete há semanas, diarreia crônica, emagrecimento, anemia
Apendagite epiploica Adultos Dor muito localizada, bom estado geral, sem febre, exames normais, vista na tomografia
Colecistite Adultos Dor mais alta, embaixo das costelas do lado direito
Hérnia inguinal Qualquer idade Abaulamento na virilha que aumenta ao fazer força
Torção de testículo Meninos e adolescentes Dor súbita no testículo ou no baixo ventre, testículo inchado e mais alto, vômitos. É emergência
Prisão de ventre Qualquer idade Dias sem evacuar, barriga estufada, alívio ao evacuar, sem febre

Algumas têm texto próprio no site. A colecistite aguda dói embaixo das costelas. A hérnia inguinal na mulher pode doer sem abaulamento visível. A prisão de ventre causa dor do lado direito com mais frequência do que se imagina. A pancreatite aguda começa na boca do estômago, como a apendicite, mas costuma ir para as costas, e não para o lado direito.

Em mulheres em idade fértil, o teste de gravidez faz parte de toda avaliação de dor abdominal, mesmo quando a paciente acha impossível estar grávida. Gravidez ectópica rota pode matar, e um teste simples a coloca na mesa ou a tira dela.

Como o médico confirma

História, exame e laboratório

O médico pergunta onde a dor começou, para onde foi, há quantas horas, se há fome, se o vômito veio antes ou depois da dor, se há febre, como estão intestino e urina e, nas mulheres, a data da última menstruação. Depois examina a barriga. A revisão de Wagner, no JAMA, concluiu que história e exame físico são pelo menos tão precisos quanto qualquer exame de laboratório.

O hemograma mostra os leucócitos e a proporção de neutrófilos. A proteína C reativa, a PCR, mede inflamação. Na meta-análise de Andersson, essas variáveis foram as mais discriminativas, sobretudo para apendicite perfurada. Apendicite foi provável com duas ou mais alteradas, e improvável com todas normais. Nas primeiras horas, porém, os exames podem ainda estar normais. O exame de urina ajuda a separar cálculo e infecção urinária. O beta-hCG, o teste de gravidez, é feito em toda mulher em idade fértil.

Escores clínicos

Escores somam pontos de sintomas, exame e laboratório. Servem para decidir quem pode ir para casa, quem precisa de imagem e quem precisa do cirurgião. Não servem para autoavaliação, porque dependem de exame e de sangue.

  • Alvarado (1986). Até 10 pontos, com dor que migra, perda de apetite, náusea, dor no lado direito, dor à descompressão, febre, leucocitose e desvio à esquerda. Uma revisão de 42 estudos mostrou que menos de 5 pontos afasta apendicite com sensibilidade de 99%. Para confirmar é fraco, e superestima a probabilidade em mulheres.
  • AIR (2008). Inclui a PCR. No estudo original, classificou 63% dos pacientes em baixa ou alta probabilidade com 97,2% de acerto.
  • AAS (2014). Criado em 829 adultos. Abaixo de 11 pontos ficaram só 4% das apendicites, nenhuma complicada. Com 16 ou mais, especificidade de 93%. Reduziu pela metade a necessidade de imagem.

A diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência, a WSES, recomendou em 2020 o AIR e o AAS como melhores preditores e desaconselhou usar o Alvarado para confirmar o diagnóstico em adultos. A edição de 2025, publicada em 2026, mantém que escores somados à imagem reduzem as cirurgias com apêndice normal. Em crianças, a diretriz de 2020 já pedia não diagnosticar só pelo escore.

Ultrassom

É o primeiro exame de imagem recomendado pela WSES, em adultos e crianças. Não usa radiação e enxerga também ovários, útero, rins e vesícula. É o preferido em crianças, gestantes e jovens magros. Ultrassom que mostra apêndice inflamado torna o diagnóstico provável. Ultrassom que não mostra o apêndice não descarta nada. Numa meta-análise com 2.841 pacientes, a sensibilidade foi de 69% e a especificidade de 81%. Obesidade, gases e apêndice atrás do ceco atrapalham.

Tomografia

É o exame mais preciso em adultos. Uma revisão Cochrane com mais de 10 mil pacientes encontrou sensibilidade de 95% e especificidade de 94%. Com tomografia negativa, a chance de apendicite foi de 4%. A tomografia de baixa dose teve desempenho semelhante, e um estudo randomizado no New England Journal of Medicine mostrou que ela não aumentou as cirurgias desnecessárias em adolescentes e adultos jovens. A tomografia também mostra perfuração, abscesso, fecalito ou outra causa da dor, e por isso é feita mais cedo em idosos.

Ressonância

Sem radiação, é a alternativa na gestante quando o ultrassom não esclarece. Uma revisão Cochrane de 2021 encontrou, em gestantes, sensibilidade de 96% e especificidade de 97%. O ultrassom continua sendo o primeiro exame na gravidez, mas perde precisão com o avanço da gestação. Numa meta-análise, sua sensibilidade caiu de 69% no primeiro trimestre para 51% no terceiro.

Observar também é diagnóstico

Quando tudo fica no limite, uma conduta válida é observar por algumas horas e repetir exame e sangue. A apendicite verdadeira piora e se define. A maioria das outras causas melhora. Uma revisão de Andersson mostrou que essa observação ativa reduz as cirurgias desnecessárias sem aumentar as perfurações.

Quanto tempo dá para esperar

Um estudo de 2006 revisou 219 pacientes operados por apendicite em Nova York. O risco de perfuração foi de até 2% enquanto os sintomas não tratados tinham menos de 36 horas. Depois disso, passou a ser de cerca de 5% a cada 12 horas. Ter 36 horas ou mais de sintomas multiplicou o risco por 6,6. Idade de 65 anos ou mais, febre alta e frequência cardíaca de 100 ou mais também pesaram.

Há uma nuance. Parte das apendicites leves regride sozinha, e parte das perfuradas já chega perfurada, porque evoluiu rápido desde o começo. Isso não torna a espera segura. Significa que o tempo que está nas suas mãos é o que vai do início da dor até a chegada ao médico.

Dentro do hospital, com diagnóstico feito e antibiótico iniciado, a situação muda. A WSES 2025 considera que a cirurgia da apendicite não complicada pode ser feita dentro de 24 horas sem aumento de risco. A diretriz americana da SAGES, de 2024, aceita tanto a operação imediata quanto a adiada por mais de 12 horas. O atraso que pesa é o de fora do hospital.

Quando ir ao pronto-socorro agora

  • Dor que começou no meio da barriga, se fixou no lado direito, embaixo, e está piorando.
  • Dor que piora ao andar, tossir ou no sacolejo do carro, a ponto de você evitar se mexer.
  • Dor no lado direito com febre ou calafrios.
  • Dor espalhada pela barriga toda, barriga dura, ou dor forte que melhora de repente e volta pior e espalhada.
  • Vômitos repetidos que não deixam beber água.
  • Coração acelerado, tontura, desmaio.
  • Mulher em idade fértil com dor de um lado, embaixo, e atraso menstrual ou sangramento vaginal.
  • Criança pequena com febre, vômitos, barriga dolorida e recusa de andar.
  • Gestante, idoso ou imunossuprimido com dor abdominal nova que não passa em poucas horas, mesmo que pareça leve.

O que não fazer em casa

  • Laxante ou lavagem intestinal. Não tratam apendicite, podem piorar a cólica e provocar diarreia que atrapalha a avaliação.
  • Analgésico forte para ver se passa. No hospital, remédio para dor durante a avaliação é seguro. Uma revisão Cochrane mostrou que opioides não aumentam o erro de diagnóstico na dor abdominal aguda. O risco está em usar o remédio em casa para adiar a ida ao médico. Dor que pede remédio forte pede avaliação.
  • Antibiótico por conta própria. Pode abafar a febre e a dor sem resolver a inflamação, atrasa o diagnóstico e dificulta a avaliação.
  • Bolsa de água quente no lado direito. Não trata a inflamação. O alívio pode fazer a pessoa adiar a ida ao médico.
  • Esperar dias. O risco de perfuração cresce depois de 36 horas.
  • Comer até a avaliação. Se houver cirurgia, o estômago vazio torna a anestesia mais segura.
  • Dirigir sozinho com dor forte ou tontura.

E se for apendicite

O tratamento padrão é a retirada do apêndice. A WSES 2025 mantém a videolaparoscopia como via padrão. São pequenos cortes, com menos dor, menos infecção de ferida e recuperação mais rápida do que a cirurgia aberta. O apêndice retirado vai sempre para análise, e numa pequena parte das peças aparece um achado como o tumor neuroendócrino do apêndice, quase sempre pequeno e já resolvido pela cirurgia.

Em casos selecionados de apendicite não complicada, existe a opção de tratar só com antibiótico. No APPAC, finlandês, com 530 adultos, 27,3% do grupo do antibiótico foram operados no primeiro ano, e a recorrência chegou a 39,1% em 5 anos. No CODA, americano, de 2020, com 1.552 adultos, o antibiótico não foi inferior à cirurgia em qualidade de vida aos 30 dias. Mas 29% foram operados em 90 dias, e 41% quando havia fecalito. As complicações foram mais frequentes no grupo do antibiótico, e o excesso ficou concentrado em quem tinha fecalito.

As diretrizes diferem no tom. A WSES 2025 considera o antibiótico seguro e eficaz em pacientes selecionados, e já em 2020 desaconselhava esse caminho na gestação. A SAGES 2024 sugere a cirurgia como conduta preferencial, com recomendação condicional. Na prática, o antibiótico isolado faz mais sentido para o adulto com apendicite não complicada, sem fecalito, que aceita a chance de o problema voltar. Fecalito, perfuração, abscesso e gravidez puxam para a cirurgia. A decisão se toma com o cirurgião, olhando o seu exame. O texto sobre causas, sintomas e tratamento resume o tratamento, e as perguntas para fazer antes da cirurgia ajudam na conversa.

A dor que não é do apêndice

Muita gente chega à consulta com medo de apendicite por uma dor no lado direito que vem e vai há meses. Apendicite aguda é doença de horas a poucos dias, que piora até ser tratada. Dor que se repete há meses, dura minutos ou horas, melhora sozinha e nunca vem com febre e perda de apetite quase nunca é apendicite.

Essa dor tem outras causas comuns. Gases, prisão de ventre, intestino irritável, supercrescimento bacteriano, dor da parede abdominal, hérnia e endometriose. Quando ela vem com diarreia crônica, sangue nas fezes, anemia ou emagrecimento, a investigação passa a incluir Crohn e tumores do intestino, como no texto sobre sinais de câncer colorretal. Dor recorrente na parte de cima da barriga costuma vir da vesícula ou do estômago, como mostra o texto sobre causas de dor de estômago. Retirar o apêndice não resolve dor que não vem dele.

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Em qual grupo você está

Grupo 1, pronto-socorro agora. Dor que começou no meio e se fixou no lado direito, embaixo, e está piorando. Ou dor com febre, vômitos repetidos, barriga dura, dor espalhada, tontura. Ou mulher com dor e atraso menstrual. Ou criança pequena, gestante, idoso ou imunossuprimido com dor nova que não passa. Não espere a manhã seguinte.

Grupo 2, avaliação hoje. Dor no lado direito ainda sem a sequência completa, sem febre e sem vômitos, que não melhorou em algumas horas. Sem refeição grande, sem laxante, sem analgésico forte, e atendimento no mesmo dia. Se piorar no caminho, você passou para o grupo 1.

Grupo 3, provavelmente outra causa. Dor que vem e vai há semanas ou meses, sem piora, com apetite normal e sem febre. Ou dor difusa com diarreia e vômitos que vieram antes da dor e estão melhorando. Isso pede consulta, não pronto-socorro. Se o quadro mudar e seguir a sequência da apendicite, mude de grupo.

Se a dor no lado direito já voltou mais de uma vez, ou se você tratou uma apendicite com antibiótico e quer discutir os próximos passos, uma consulta ajuda a organizar a investigação. O site também resume os atendimentos de urgência abdominal.

Perguntas frequentes

Como saber se é apendicite em casa?
Não existe teste caseiro que confirme apendicite. O que você consegue observar é a sequência dos sintomas. Dor que começa ao redor do umbigo e em algumas horas se fixa no lado direito, embaixo, perda de apetite, náusea depois da dor, febre baixa e piora ao andar, tossir ou no sacolejo do carro formam o quadro típico. Se essa sequência está acontecendo, procure um pronto-socorro sem esperar a manhã seguinte. Não aperte a barriga com força nem pule para testar a dor. O exame cabe ao médico.
Onde dói a apendicite?
No começo, a dor costuma ser difusa, ao redor do umbigo ou na boca do estômago. Depois de algumas horas, ela se concentra no lado direito, na parte baixa da barriga, entre o umbigo e o osso saliente do quadril direito. Esse ponto é conhecido como ponto de McBurney. Quando o apêndice fica atrás do intestino ou dentro da pelve, a dor pode aparecer nas costas, no flanco direito, logo acima do púbis ou junto com vontade frequente de urinar.
Dor do lado direito da barriga é sempre apendicite?
Não. Gastroenterite, adenite mesentérica, cólica renal, cisto ou torção de ovário, gravidez ectópica, infecção pélvica, diverticulite do lado direito, doença de Crohn, pedra na vesícula e prisão de ventre também doem do lado direito. O que aproxima da apendicite é a dor que começa no meio da barriga e migra, a perda de apetite, a náusea depois da dor e a piora progressiva ao longo de horas. Dor do lado direito que vai e volta há meses, sem piora, raramente é apendicite. Apendicite do lado esquerdo é rara e acontece em situações anatômicas incomuns.
Quanto tempo a apendicite leva para estourar?
Não há um relógio exato, mas há números. Num estudo com 219 pacientes operados, o risco de perfuração foi de até 2% nas primeiras 36 horas de sintomas não tratados. Depois disso, subiu para cerca de 5% a cada período de 12 horas. Idade de 65 anos ou mais, febre acima de 38,9 °C e coração acelerado também se associaram a mais perfuração. Por isso a orientação é procurar avaliação no mesmo dia em que a dor se fixa no lado direito, e não esperar dias.
Apendicite dá febre e diarreia?
Febre baixa, em torno de 37,5 °C a 38 °C, é comum depois das primeiras horas. Febre alta sugere apendicite mais avançada ou perfurada. Diarreia não é típica, mas pode acontecer quando o apêndice inflamado fica na pelve, encostado no reto. Diarreia volumosa desde o início, sobretudo com vômitos que começaram antes da dor e outras pessoas da casa com o mesmo quadro, aponta mais para gastroenterite.
Posso tomar remédio para dor se suspeitar de apendicite?
No hospital, receber analgésico durante a avaliação é seguro. Uma revisão Cochrane mostrou que opioides dados a pacientes com dor abdominal aguda não aumentam o erro de diagnóstico. O problema é outro. Tomar analgésico forte em casa para ver se passa costuma adiar a ida ao pronto-socorro, e esse atraso é o que aumenta o risco de perfuração. Se a dor é suficiente para pedir um remédio forte e segue a sequência da apendicite, o lugar certo é o pronto-socorro. Laxantes e lavagens intestinais devem ser evitados.
Exame de sangue normal descarta apendicite?
Ajuda muito, mas não descarta sozinho. Leucócitos e proteína C reativa normais tornam a apendicite bem menos provável, principalmente depois das primeiras horas de dor. Nas primeiras horas, os exames podem ainda estar normais. Em crianças, leucócitos abaixo de 10.000 reduzem bastante a chance de apendicite. Se o exame é normal mas a dor continua localizada e piorando, o médico repete a avaliação, pede imagem ou mantém observação.
Apendicite pode ser tratada sem cirurgia?
Em casos selecionados, sim. Em adultos com apendicite não complicada, confirmada por tomografia, o tratamento só com antibióticos resolve o quadro inicial na maioria das pessoas. O preço é a recorrência. No estudo finlandês APPAC, 39% dos tratados com antibiótico tiveram nova apendicite em 5 anos. No estudo americano CODA, 29% precisaram operar em 90 dias, e 41% quando havia um fecalito no apêndice. A cirurgia por videolaparoscopia continua sendo o tratamento padrão. A escolha é feita com o cirurgião, caso a caso.

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