Dr. Daniel Szor
Doença de Crohn e retocolite ulcerativa, o que são, como tratar e quando operar
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Doença de Crohn e retocolite ulcerativa, o que são, como tratar e quando operar

26 de setembro de 2026 · leitura de 32 min

Resposta rápida

Doença inflamatória intestinal (DII) é o nome do grupo que reúne a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, duas inflamações crônicas do intestino. A causa exata não é conhecida. O modelo aceito é uma resposta imune desregulada contra a flora intestinal em pessoas com predisposição genética. A retocolite atinge só o intestino grosso, quase sempre começa no reto e sobe de forma contínua, inflamando apenas a camada mais superficial da parede. O Crohn pode atingir qualquer ponto do tubo digestivo, mais comumente o final do intestino delgado, pula trechos e atravessa a parede inteira, o que explica estreitamentos, fístulas e abscessos. Nenhuma das duas tem cura com remédio hoje, mas as duas podem ficar em remissão por anos. O diagnóstico combina calprotectina nas fezes, colonoscopia com biópsias do cólon e do íleo e exames de imagem do intestino delgado, depois de afastar infecção, uso de anti-inflamatório e, no Brasil, tuberculose intestinal. O tratamento é escolhido pela gravidade e pelo risco de progressão, e a meta não é só aliviar sintomas, é cicatrizar a mucosa. Corticoide serve para a crise, não para manter. O risco de cirurgia caiu nas últimas décadas: em coortes recentes, cerca de 18% das pessoas com Crohn e 7% das com retocolite são operadas em 5 anos. No Crohn a cirurgia trata complicações e não cura; na retocolite, retirar o cólon e o reto elimina a doença intestinal. O risco de câncer colorretal existe, mas é baixo com acompanhamento, e a colonoscopia de vigilância começa cerca de 8 anos após o início dos sintomas, ou já no diagnóstico em quem tem colangite esclerosante primária.

O exame era para investigar uma diarreia que não passava. O laudo da colonoscopia chegou com frases como ileíte terminal com úlceras aftoides, colite crônica em atividade ou achados compatíveis com doença inflamatória intestinal. A busca na internet respondeu em segundos com três palavras: crônica, incurável, câncer.

Essas três palavras, soltas, contam uma história pior do que a real. A maior parte das pessoas com doença de Crohn ou retocolite ulcerativa trabalha, viaja, tem filhos e passa longos períodos sem sintoma. Este texto explica o que o laudo diz, em qual grupo de gravidade está e o que muda a partir de agora.

O que o seu laudo está dizendo

Laudos de colonoscopia e de biópsia misturam descrição com diagnóstico. Quase todo o susto vem de ler descrição como se fosse sentença.

Onde está a inflamação

  • Proctite ou retite. Inflamação só do reto.
  • Colite. Inflamação do cólon. Se atinge o cólon inteiro, pancolite.
  • Ileíte terminal. Inflamação do último trecho do intestino delgado, logo antes do cólon. É o local mais comum do Crohn.
  • Lesões salteadas. Áreas doentes separadas por mucosa normal. Típico de Crohn.
  • Acometimento contínuo a partir do reto. Típico de retocolite.

Que tipo de lesão

  • Enantema, perda do padrão vascular, friabilidade. Mucosa avermelhada, sem os vasinhos visíveis, que sangra ao toque. Descrevem inflamação, não a causa.
  • Úlceras aftoides. Feridas pequenas, como aftas. Aparecem no Crohn, mas também em infecções e com anti-inflamatórios.
  • Úlceras longitudinais e aspecto em pedra de calçamento. Úlceras profundas entre mucosa inchada. Sugerem Crohn.
  • Estenose. Estreitamento.

O que diz a biópsia

  • Colite crônica, distorção arquitetural das criptas, plasmocitose basal. A inflamação é antiga, de semanas a meses. É o que separa DII de uma infecção aguda.
  • Em atividade. Há inflamação acontecendo agora.
  • Granuloma não caseoso. Aglomerado organizado de células de defesa. Quando aparece, reforça Crohn. Quando falta, não afasta.
  • Granuloma caseoso. Levanta a hipótese de tuberculose, que precisa ser afastada antes de qualquer imunossupressão.
  • Negativo para displasia. Não há alteração pré-cancerosa naquela amostra.

Compatível com doença inflamatória intestinal quer dizer que o tecido combina com DII, não que o diagnóstico está fechado. O diagnóstico final junta história, exame, sangue, fezes, imagem e biópsia.

O que é doença inflamatória intestinal e por que ela aparece

Doença inflamatória intestinal (DII) é o nome do grupo que reúne a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. Nas duas, o sistema de defesa do intestino reage de forma exagerada e contínua contra as bactérias que vivem ali. A inflamação não para sozinha, e por isso é crônica. Três fatores se somam.

Genética. Muitos genes já foram associados à DII, mas nenhum sozinho determina a doença. O peso familiar é mensurável. Num estudo com toda a população da Dinamarca, 8,3 milhões de pessoas acompanhadas de 1977 a 2011, parente de primeiro grau com Crohn multiplicou por 7,8 o risco de Crohn, e parente de primeiro grau com retocolite multiplicou por 4,1 o risco de retocolite. Ainda assim, só até 12% dos casos eram familiares. A grande maioria de quem tem DII não tem ninguém na família com a doença.

Microbiota. Pessoas com DII têm flora intestinal menos diversa. Ainda não se sabe o quanto isso é causa e o quanto é consequência.

Ambiente. A DII acompanha a urbanização. O cigarro é o exemplo mais curioso. No Crohn, fumar aumenta o risco e piora a evolução. Na retocolite acontece o contrário, e a diretriz europeia registra que parar de fumar pode precipitar a doença. Isso não é motivo para fumar, mas explica por que algumas pessoas têm retocolite pouco depois de largar o cigarro. Dieta rica em ultraprocessados e ausência de aleitamento materno também aparecem nos estudos como fatores associados.

A DII no Brasil

Uma revisão de estudos populacionais publicada no Lancet em 2017 mostrou que a incidência se estabilizou na Europa e na América do Norte, mas subiu em países recém-industrializados. No estudo brasileiro incluído, o aumento anual foi de 11% no Crohn e de 15% na retocolite.

O maior levantamento nacional, publicado em 2022 com 212.026 pacientes do SUS entre 2012 e 2020, mostrou que a prevalência triplicou, de 30 para 100 casos por 100 mil habitantes, o equivalente a 0,1% dos brasileiros. A incidência da retocolite subiu de 5,7 para 6,9 por 100 mil por ano, e a do Crohn caiu de 3,7 para 2,7. A prevalência é maior no Sul e diminui em direção ao Norte. Como o estudo só enxerga o sistema público, o número real é maior.

Diferenças entre Crohn e retocolite

Doença de CrohnRetocolite ulcerativa
Onde apareceQualquer ponto da boca ao ânus. Mais comum no íleo terminal e no cólonSó no intestino grosso. Quase sempre começa no reto
PadrãoSalteadoContínuo, do reto para cima
ProfundidadeToda a parede do intestinoSó a mucosa, a camada mais interna
Sintoma típicoDor abdominal, diarreia, emagrecimentoDiarreia com sangue e muco, urgência
Complicações típicasEstreitamento, fístula, abscesso, doença perianalColite grave, sangramento, displasia após muitos anos
CigarroPioraParece proteger, mas não se recomenda fumar
O que a cirurgia fazTrata a complicação, não curaRetirar cólon e reto elimina a doença intestinal

Em parte das pessoas com colite não é possível definir o tipo no começo. O nome é colite não classificada, e a definição costuma aparecer com a evolução.

Sintomas, e o que não vem da DII

  • Diarreia persistente, por mais de 4 semanas. Na retocolite vem com sangue e muco. No Crohn do delgado pode vir sem sangue.
  • Urgência para evacuar e sensação de que não esvaziou.
  • Dor abdominal em cólica. No Crohn do íleo fica no lado direito baixo da barriga e pode imitar apendicite.
  • Emagrecimento, cansaço, febre baixa e anemia por falta de ferro.
  • Lesões ao redor do ânus, como fissuras atípicas, abscessos e fístulas. No Crohn, podem ser o primeiro sinal.
  • Atraso de crescimento em crianças e adolescentes.

Separe sintoma de achado. Pessoas com DII também têm síndrome do intestino irritável, intolerâncias e supercrescimento bacteriano, principalmente depois de cirurgia ou com estreitamentos. É comum a colonoscopia mostrar remissão e o paciente continuar com gases e distensão. Aumentar a imunossupressão por um sintoma que não vem da inflamação não ajuda. Por isso o acompanhamento se baseia em exames objetivos, e não só no que se sente. O inverso também acontece: sangue nas fezes em quem tem retocolite pode vir de uma hemorroida, e não de uma crise.

Não é só no intestino

Uma revisão publicada em Gastroenterology em 2021 mostrou que manifestações fora do intestino são frequentes e que, em até 24% dos pacientes, surgem antes dos sintomas intestinais. As mais comuns atingem articulações, pele e olhos. Elas se dividem em dois grupos.

  • Acompanham a atividade do intestino. Artrite periférica, aftas, episclerite (olho vermelho sem dor intensa) e eritema nodoso, nódulos vermelhos e doloridos nas canelas. Melhoram quando o intestino é controlado.
  • Seguem caminho próprio. Uveíte anterior (olho vermelho com dor e visão embaçada, urgência oftalmológica), espondilite anquilosante (dor lombar pior de manhã) e colangite esclerosante primária, doença das vias biliares. Precisam de tratamento específico.

A colangite esclerosante costuma aparecer como fosfatase alcalina e gama-GT elevadas, tema do texto sobre enzimas canaliculares aumentadas. Ela muda a vigilância do intestino.

Como se confirma o diagnóstico

Calprotectina fecal, o filtro

A calprotectina é uma proteína dos glóbulos brancos que aparece nas fezes quando há inflamação no intestino. Numa meta-análise publicada no BMJ em 2010, em adultos com suspeita de DII, o exame teve sensibilidade de 93% e especificidade de 96%. Usado como filtro, reduziria em 67% as colonoscopias, ao custo de atrasar o diagnóstico em cerca de 6% dos casos. A diretriz americana de 2025 recomenda corte entre 50 e 100 µg/g.

Ela não é específica de DII. Sobe em infecções, com anti-inflamatórios, em pólipos e em câncer. Calprotectina alta pede investigação. Calprotectina normal, em quem tem sintoma leve e nenhum sinal de alarme, torna a DII pouco provável. Depois do diagnóstico, ela vira o termômetro do tratamento.

Colonoscopia com biópsias, inclusive do íleo

É o exame central. Precisa chegar ao íleo terminal, onde o Crohn mais aparece, e colher biópsias de vários segmentos, inclusive dos que parecem normais. Uma colonoscopia que não chega ao íleo pode deixar o Crohn passar, e a qualidade depende do preparo intestinal.

Imagem do intestino delgado

  • Enterorressonância. Mostra extensão, estreitamentos, fístulas e abscessos. Pela diretriz americana, é preferida abaixo dos 35 anos e em quem vai repetir o exame, porque não usa radiação.
  • Enterotomografia. Desempenho semelhante, mais rápida, útil na urgência.
  • Ultrassom intestinal. Sem radiação e sem preparo, cada vez mais usado para acompanhar a resposta.
  • Cápsula endoscópica. Câmera engolida que fotografa o delgado. Se houver suspeita de estreitamento, antes se usa uma cápsula de patência, que se dissolve, para confirmar que a câmera vai passar.
  • Ressonância da pelve. Mapeia fístulas e abscessos ao redor do ânus.

Doenças que imitam a DII

  • Infecções intestinais, incluindo Clostridioides difficile depois de antibiótico. Exame de fezes vem antes de qualquer imunossupressão. O roteiro geral está no texto sobre diarreia.
  • Tuberculose intestinal. Relevante no Brasil. Atinge a mesma região do Crohn, o íleo terminal e o ceco, com úlceras e estreitamentos parecidos, e a diretriz americana a lista entre os imitadores do Crohn. Confundir as duas é grave, porque corticoide e biológico agravam a tuberculose. A investigação inclui pesquisa e cultura do bacilo na biópsia, radiografia de tórax e teste de tuberculose latente.
  • Colite por anti-inflamatório, como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno.
  • Colite isquêmica e colite diverticular, mais comuns acima dos 50 anos.
  • Síndrome do intestino irritável, com calprotectina e colonoscopia normais.
  • Câncer colorretal e linfoma. Os sinais de câncer colorretal e o sangue oculto positivo merecem investigação completa, mesmo em quem já tem DII.

Em qual grupo de gravidade você está

Depois do diagnóstico, a pergunta que importa é o quanto a doença tende a progredir. O relatório pode trazer a classificação de Montreal, de 2006.

No Crohn. Idade no diagnóstico (A1 até 16 anos, A2 de 17 a 40, A3 acima de 40), localização (L1 íleo, L2 cólon, L3 íleo e cólon, L4 parte alta do tubo digestivo, que pode se somar às anteriores) e comportamento (B1 só inflamatório, B2 estenosante, B3 penetrante, com fístula ou abscesso). A letra p indica doença perianal.

A diretriz americana de 2025 resume o que isso significa. Íleo, cólon e íleo com cólon dividem os pacientes em partes quase iguais. A maioria começa com doença só inflamatória, mas até metade desenvolve estreitamento, abscesso ou fístula em 20 anos. Apontam para evolução mais agressiva o diagnóstico em idade jovem, a doença extensa, o acometimento do íleo, a doença perianal, as úlceras profundas, as manifestações fora do intestino no diagnóstico e o estreitamento ou fístula logo no começo. Quem tem esses fatores costuma se beneficiar de tratamento mais forte desde o início.

Na retocolite. Extensão (E1 só o reto, E2 colite esquerda, E3 colite extensa) e gravidade da crise, de S0 a S3. Colite extensa tem mais chance de crise grave, de cirurgia e de câncer a longo prazo. Proctite isolada tem o melhor prognóstico e costuma responder a tratamento local.

Como é o tratamento

A meta não é só se sentir bem

O consenso internacional STRIDE-II, de 2021, definiu metas em etapas. A curto prazo, alívio dos sintomas. Em seguida, normalização da proteína C reativa e queda da calprotectina. A longo prazo, cicatrização da mucosa na colonoscopia, qualidade de vida normal, ausência de incapacidade e, em crianças, crescimento normal. Se a meta não é atingida no prazo, o tratamento é ajustado, mesmo que a pessoa se sinta bem.

As classes de remédio

ClasseExemplosPapel
Aminossalicilatos (5-ASA)Mesalazina, sulfassalazinaBase da retocolite leve a moderada, por boca e por via retal. A diretriz americana de 2025 recomenda não usar mesalazina oral no Crohn
CorticoidesPrednisona, budesonidaSó para tirar da crise. Não mantêm remissão. Uso repetido indica que o tratamento de base precisa mudar
ImunomoduladoresAzatioprina, mercaptopurina, metotrexatoManutenção, e associação com biológicos para reduzir anticorpos contra eles. Demoram meses para agir. Exigem hemograma e exames do fígado periódicos, protetor solar e revisão da pele. O metotrexato é contraindicado na gravidez
Anti-TNFInfliximabe, adalimumabe e biossimilaresDoença moderada a grave e fístula perianal
Anti-integrinaVedolizumabeAção seletiva no intestino
Anti-interleucinasUstequinumabe, risanquizumabe, mirikizumabe, guselkumabeDoença moderada a grave, inclusive após falha de anti-TNF
Inibidores de JAKTofacitinibe, upadacitinibe, filgotinibeComprimidos de ação rápida. Exigem avaliação de risco cardiovascular e de trombose
Moduladores de S1POzanimode, etrasimodeComprimidos para retocolite moderada a grave. Exigem avaliação do coração e dos olhos antes de começar

Nem todos são aprovados para as duas doenças, e o acesso pelo SUS e pelos planos varia. A escolha depende do tipo de doença, da gravidade, do risco de progressão, de outras doenças e do desejo de gravidez. A diretriz americana de Crohn de 2025 passou a sugerir não exigir falha do tratamento convencional antes de iniciar biológico em doença moderada a grave, e apoia os biossimilares, inclusive na troca em quem está estável.

Nenhum remédio funciona para todo mundo. Parte das pessoas não responde ao primeiro biológico e parte perde a resposta com o tempo. Trocar de classe faz parte do tratamento.

Antes do biológico, vacinas e exames

  • Tuberculose. A diretriz americana de 2025 manda pesquisar infecção latente, com preferência pelo exame de sangue do tipo IGRA em quem recebeu BCG, como a maioria dos brasileiros. Se houver infecção latente, o tratamento preventivo começa semanas antes do anti-TNF.
  • Hepatite B. Sorologia completa. Quem nunca teve contato é vacinado, de preferência antes do biológico. Quem tem o vírus recebe antiviral para evitar reativação.
  • Outras vacinas. Gripe inativada, pneumococo, hepatite A, HPV, covid e herpes-zóster recombinante, que é inativada, de preferência antes de começar.
  • Vacinas vivas atenuadas devem ser evitadas durante a imunossupressão. A lista inclui febre amarela, tríplice viral, varicela e BCG. Quando indicadas, são aplicadas pelo menos 4 semanas antes de começar o tratamento. Quem mora ou vai viajar para área de febre amarela precisa resolver isso antes.

Biológico é perigoso?

O maior estudo sobre linfoma, publicado no JAMA em 2017, acompanhou 189.289 adultos franceses com DII por uma mediana de 6,7 anos.

SituaçãoLinfomas por 1.000 pessoas por anoEm termos práticos
Sem azatioprina e sem anti-TNF0,26Cerca de 1 em 3.800 por ano
Anti-TNF sozinho0,41Cerca de 1 em 2.400 por ano
Azatioprina ou mercaptopurina sozinhas0,54Cerca de 1 em 1.850 por ano
Anti-TNF com azatioprina0,95Cerca de 1 em 1.050 por ano

O risco relativo sobe, e o do tratamento combinado é o mais alto. O risco absoluto continua baixo. Com anti-TNF sozinho, a diferença foi de cerca de 1 linfoma a mais a cada 6.700 pessoas tratadas por ano. Com a combinação, cerca de 1 a mais a cada 1.450. Do outro lado estão crises, internações, corticoide repetido e cirurgias que o tratamento eficaz evita. A diretriz americana registra que os anti-TNF podem ser usados no planejamento da gravidez, na gestação e após o parto. O risco mais presente no dia a dia é infecção, e para isso servem a triagem e as vacinas.

Quando a cirurgia entra no Crohn

A cirurgia faz parte da história natural do Crohn e ficou menos frequente. Uma meta-análise de coortes populacionais publicada em 2021 mostrou, nas coortes posteriores a 2000, risco de operar de 12% em 1 ano, 18% em 5 anos e 26% em 10 anos após o diagnóstico. Entre os já operados, 18% precisaram de nova ressecção em 5 anos e 31% em 10 anos.

As indicações

  • Estreitamento fibrótico. O Crohn cicatriza com fibrose, e a cicatriz estreita o intestino. Inflamação responde a remédio, fibrose não. A diretriz americana separa os dois cenários: estreitamento com inflamação ativa pode responder ao tratamento clínico, e estreitamento fibrótico com sintomas se beneficia de dilatação endoscópica ou cirurgia. O sinal típico é cólica depois de comer, com distensão e às vezes vômitos.
  • Fístula entre o intestino e outra alça, a bexiga, a vagina ou a pele.
  • Abscesso. Muitos são drenados antes por punção guiada por imagem, com antibiótico, para operar depois em melhores condições.
  • Perfuração, sangramento grave e obstrução completa, que são urgências.
  • Falha do tratamento clínico ou dependência de corticoide.
  • Displasia ou câncer.

Cirurgia como escolha, e não como último recurso

O estudo LIR!C, de 2017, sorteou 143 adultos com Crohn limitado ao final do íleo, com trecho doente de até 40 cm, sem estreitamento crítico, que não tinham respondido ao tratamento convencional. Uma parte fez ressecção ileocecal por videolaparoscopia, a outra recebeu infliximabe. Em 12 meses, a qualidade de vida foi semelhante. No seguimento publicado em 2020, com mediana de 5 anos, 48% dos que começaram com infliximabe acabaram operados. No grupo operado, 26% precisaram de anti-TNF depois, 42% não precisaram de tratamento adicional para atividade do Crohn, embora quase metade deles tenha usado imunomodulador preventivo, e nenhum precisou de segunda cirurgia no período.

A leitura correta não é que a cirurgia seja melhor que o remédio. É que, em doença curta e restrita ao íleo, operar cedo é uma alternativa razoável ao biológico, decidida em conjunto por paciente, gastroenterologista e cirurgião. A diretriz europeia de cirurgia no Crohn, de 2024, incorporou essa opção.

Como se opera

A regra no Crohn é preservar intestino, porque a doença pode voltar. A cirurgia mais comum é a ressecção ileocecal, que retira o final do íleo e o início do cólon, por videolaparoscopia sempre que possível. Em estreitamentos curtos e múltiplos do delgado existe a estricturoplastia, que alarga o trecho estreitado sem retirar intestino, abrindo-o no sentido do comprimento e fechando-o no sentido da largura. Com abscesso, desnutrição ou corticoide recente em dose alta, a emenda pode ser protegida por uma ostomia temporária.

O preparo pesa no resultado. Parar de fumar, tratar a anemia, drenar abscessos e recuperar a nutrição reduzem complicações. A atualização americana de nutrição em DII, de 2024, registra que a nutrição enteral exclusiva, só com fórmula líquida, pode ajudar pacientes desnutridos antes da cirurgia eletiva de Crohn.

Doença perianal, fístula e abscesso

No estudo populacional do condado de Olmsted, nos Estados Unidos, 20% das pessoas com Crohn tiveram fístula perianal, com risco acumulado de 21% em 10 anos e 26% em 20 anos. A diretriz americana registra que as lesões perianais podem vir meses antes do diagnóstico.

Um abscesso e uma fístula anal sem Crohn são tratados com drenagem e depois cirurgia da fístula. No Crohn, a sequência muda.

  1. Drenar o abscesso, sem esperar.
  2. Colocar um sedenho, o seton, um fio macio que passa pelo trajeto da fístula e mantém a drenagem aberta. A diretriz americana de 2025 recomenda drenar e colocar sedenho antes da terapia avançada, para aumentar sua eficácia. A europeia de 2024 recomenda o sedenho antes do tratamento clínico ou cirúrgico nas fístulas complexas.
  3. Tratar a inflamação, geralmente com anti-TNF.
  4. Retirar o sedenho ou fazer uma cirurgia de fechamento que preserve o esfíncter, com a inflamação controlada.

O grande cuidado é a continência. Cortar esfíncter em Crohn ativo, com tecido que cicatriza mal, pode causar incontinência definitiva. Fissuras fora da linha média, múltiplas ou que não cicatrizam levantam suspeita de Crohn. Plicomas, as pelinhas ao redor do ânus, são comuns no Crohn, e a retirada é decidida com mais cautela. A avaliação dessas lesões e das demais doenças anorretais faz parte do acompanhamento.

Depois da cirurgia de Crohn, recidiva e colonoscopia de controle

Retirar o trecho doente não elimina a tendência de inflamar. No estudo de 1990 do grupo de Paul Rutgeerts, 73% dos operados tinham lesões visíveis na colonoscopia dentro de 1 ano, embora só 20% tivessem sintomas. Em 3 anos, 85% tinham lesões e 34% tinham sintomas. A gravidade das lesões precoces previu a evolução.

  • Colonoscopia entre 6 e 12 meses após a cirurgia, recomendada pela diretriz americana de 2025.
  • O resultado é graduado pelo escore de Rutgeerts, de i0 a i4. Escores baixos, i0 e i1, indicam baixo risco de recidiva. De i2 em diante, o risco é maior e o tratamento costuma ser intensificado.
  • Tratamento preventivo logo após a cirurgia em quem tem alto risco. Os três fatores de maior peso são fumar depois da cirurgia, doença com fístula, abscesso ou perfuração, e duas ou mais cirurgias prévias.

Parar de fumar é o tratamento mais barato do Crohn. Uma meta-análise de 16 estudos, com 2.962 operados, mostrou que fumantes têm cerca de 2 vezes mais recidiva clínica e 2,5 vezes mais nova cirurgia do que não fumantes. Ex-fumantes não tiveram diferença significativa em relação aos não fumantes.

Quando a cirurgia entra na retocolite

A retocolite fica no cólon e no reto, e retirar os dois remove o órgão doente. A bolsa ainda pode inflamar e as manifestações fora do intestino, como a colangite esclerosante, não somem com a cirurgia. Isso não torna a cirurgia a primeira opção, mas a torna uma saída definitiva quando indicada. Na mesma meta-análise de 2021, o risco de colectomia nas coortes recentes foi de 3% em 1 ano, 7% em 5 anos e 10% em 10 anos.

As indicações

  • Colite aguda grave que não responde. Seis ou mais evacuações com sangue por dia somadas a febre, coração acelerado, anemia ou marcadores inflamatórios altos, pelos critérios de Truelove e Witts, de 1955. Exige internação, corticoide na veia, pesquisa de Clostridioides difficile e de citomegalovírus e prevenção de trombose com heparina, mesmo com sangramento. Numa revisão de 32 estudos, com 1.991 pacientes, 27% precisaram de colectomia a curto prazo. A resposta é avaliada por volta do 3º dia. Quem não responde recebe resgate com infliximabe ou ciclosporina, com o cirurgião acompanhando desde a internação. A colectomia entra se o resgate falhar em poucos dias, sem adiar.
  • Doença refratária ou dependente de corticoide.
  • Displasia que não pode ser removida por endoscopia, ou câncer.
  • Perfuração, megacólon tóxico e sangramento maciço, que são urgências.

As cirurgias possíveis

A mais usada por quem quer evitar ostomia permanente é a proctocolectomia total com bolsa ileal em J. Retiram-se cólon e reto, e com o final do intestino delgado se constrói um reservatório em forma de J, ligado ao ânus. As evacuações voltam a ser pelo ânus, em número maior que o habitual. Na urgência, a cirurgia é feita em etapas: primeiro se retira o cólon e se faz uma ileostomia temporária, e depois, com o paciente recuperado, se retira o reto e se constrói a bolsa.

Numa série de 3.707 pacientes, publicada em 2013, a bolsa falhou em 5,3%, e função e qualidade de vida foram boas ou excelentes em 95%. A complicação mais comum é a pouchite, inflamação da bolsa. Num estudo americano com 594 pacientes, de 2021, 48% tiveram pouchite nos primeiros 2 anos, e 9% desenvolveram inflamação da bolsa semelhante ao Crohn.

A alternativa é a proctocolectomia total com ileostomia definitiva, escolhida por quem tem esfíncter fraco, idade avançada ou prefere não conviver com o risco de pouchite. Para mulheres que pensam em engravidar, a diretriz europeia de 2023 registra que cirurgias pélvicas por DII reduzem a fertilidade e que a via laparoscópica pode diminuir esse efeito.

DII vira câncer?

Pode, e por isso existe vigilância. Mas o risco real é menor do que a internet sugere.

O número mais citado vem de uma meta-análise de 2001: 2% em 10 anos, 8% em 20 anos e 18% em 30 anos de retocolite, com dados antigos, anteriores à vigilância sistemática e aos tratamentos atuais. Um estudo escandinavo publicado no Lancet em 2020, com 96.447 pacientes com retocolite comparados a 949.207 pessoas da população geral, mostrou taxa 66% maior de câncer colorretal entre 1969 e 2017. Entre 2013 e 2017, o excesso caiu para 38%, o que corresponde a um caso adicional a cada 1.058 pacientes acompanhados por 5 anos.

O risco se concentra em quem tem doença extensa no cólon, muitos anos de doença, inflamação persistente, colangite esclerosante primária ou parente de primeiro grau com câncer colorretal. No Crohn do cólon, a vigilância segue as mesmas regras da retocolite. Proctite restrita ao reto segue o rastreamento da população geral.

A vigilância

  • Quando começar. A diretriz europeia recomenda a primeira colonoscopia de vigilância 8 anos após o início dos sintomas. A americana de Crohn de 2025 usa a mesma marca para quem tem mais de 30% do cólon acometido.
  • Colangite esclerosante primária. Vigilância desde o diagnóstico e, pela diretriz europeia, todo ano.
  • Como fazer. O exame é feito com aparelho de alta definição, de preferência com cromoendoscopia, que realça lesões planas com corante ou com filtro de luz, e biópsia dirigida, como orientam o consenso SCENIC, de 2015, e as diretrizes atuais. O exame rende mais com a doença em remissão.
  • O intervalo seguinte depende do risco individual e do resultado de cada exame.

Quem tem DII sai das regras comuns de rastreamento do câncer colorretal e entra em regra própria. A DII de longa data também aparece entre os fatores discutidos em câncer de intestino em jovens. Quando o câncer acontece, o tratamento segue os princípios da cirurgia do câncer colorretal, com a particularidade de que, na retocolite, muitas vezes se retiram cólon e reto inteiros.

Gravidez e fertilidade

A DII costuma aparecer na idade em que se pensa em ter filhos. A diretriz europeia de 2023 sobre fertilidade, gravidez e amamentação responde as dúvidas principais.

  • Fertilidade. Doença ativa reduz a fertilidade feminina, e a remissão aumenta a chance de engravidar.
  • Engravidar em remissão. Doença ativa na concepção aumenta o risco de piora durante a gestação.
  • Manter o tratamento. Azatioprina sozinha pode ser mantida. Quem tem doença ativa pouco antes ou durante a gravidez deve continuar o anti-TNF durante toda a gestação.
  • Metotrexato é contraindicado na gestação e deve ser suspenso pelo menos 3 meses antes de engravidar, com anticoncepção eficaz até lá. Inibidores de JAK e moduladores de S1P também devem ser evitados na gravidez e trocados antes da concepção.
  • Vacinas do bebê. Bebês expostos a anti-TNF ou a outro biológico na gestação não devem receber vacinas vivas nos primeiros 6 meses de vida. No Brasil isso inclui a BCG, aplicada na maternidade, e a vacina de rotavírus. Avise o obstetra, a equipe da maternidade e o pediatra antes do parto. As vacinas inativadas seguem o calendário normal.

Parar o remédio por conta própria ao descobrir a gravidez é o erro mais comum e o mais perigoso. A crise ameaça mais o bebê do que o tratamento.

Alimentação

Não existe dieta que cure a DII, e muitas das que circulam restringem tanto que levam a desnutrição. A atualização da associação americana de gastroenterologia, de 2024, é a referência.

  • Padrão mediterrâneo para todos: frutas, verduras, azeite, carboidrato complexo e proteína magra, com pouco ultraprocessado, açúcar e sal. O próprio texto registra que nenhuma dieta reduziu de forma consistente as crises em adultos. Menos carne vermelha e processada pode reduzir crises de retocolite, sem efeito demonstrado no Crohn.
  • Estreitamento no intestino. Fibra grossa, como fruta e verdura cruas, pode obstruir. A orientação é mastigar bem e cozinhar os vegetais até ficarem macios. Essa dieta pobre em resíduo vale para quem tem estreitamento, não para toda pessoa com DII.
  • Nutrição enteral exclusiva. Fórmula líquida como única alimentação por algumas semanas induz remissão no Crohn, com evidência mais forte em crianças. A diretriz pediátrica europeia de 2026 a coloca, junto com a dieta de exclusão do Crohn com nutrição parcial, como opção preferida para induzir remissão em crianças com doença de baixo risco.
  • Deficiências. Ferro e vitamina D devem ser monitorados em todos. Quem tem doença extensa do íleo ou já retirou mais de 20 cm de íleo precisa monitorar a vitamina B12.

Sinais de alarme

Nem toda piora é urgência. Os sinais abaixo pedem avaliação no mesmo dia, em pronto-socorro se necessário.

  • Seis ou mais evacuações com sangue por dia com febre, coração acelerado ou fraqueza. É o retrato da colite aguda grave.
  • Dor com barriga distendida, vômitos e parada de gases e fezes. Sugere obstrução.
  • Dor intensa e súbita com barriga rígida. Pode ser perfuração.
  • Febre com dor localizada na barriga ou ao redor do ânus. Sugere abscesso.
  • Sangramento volumoso, com tontura ou desmaio.
  • Febre, tosse ou falta de ar em quem usa imunossupressor ou biológico.
  • Olho vermelho com dor e visão embaçada. Pode ser uveíte.
  • Pele e olhos amarelados, urina escura ou coceira pelo corpo. Pode ser doença das vias biliares.

Há também sinais que não pertencem à DII já conhecida e precisam de investigação mesmo em quem está bem controlado: mudança persistente do padrão das evacuações, anemia que a atividade da doença não explica e emagrecimento sem causa.

O que muda na conduta e o que não muda nada

Não muda nada: suplementos, chás e dietas milagrosas; parar o remédio porque os sintomas sumiram, já que sem sintoma não é o mesmo que sem inflamação; adiar indefinidamente uma cirurgia bem indicada, que costuma virar cirurgia de urgência feita em piores condições.

Muda:

  • Parar de fumar, no Crohn.
  • Evitar anti-inflamatórios, que a diretriz americana associa a piora da doença.
  • Medir a inflamação com calprotectina, proteína C reativa, colonoscopia e imagem, e ajustar o tratamento pelo resultado.
  • Atualizar vacinas e fazer triagem de tuberculose e hepatite B antes da imunossupressão.
  • Planejar a gravidez com a doença em remissão.
  • Fazer a colonoscopia de vigilância no prazo, e a de 6 a 12 meses depois de uma cirurgia de Crohn.
  • Cuidar de ansiedade e depressão, que a diretriz americana associa a mais atividade da doença.

O que diz a pesquisa recente

Diretrizes. As do American College of Gastroenterology de 2025, de Lichtenstein e colaboradores para Crohn e de Rubin e colaboradores para retocolite, ambas no American Journal of Gastroenterology, sustentam a calprotectina, a colonoscopia pós-operatória, a triagem antes do biológico e as regras de vacinação. Na Europa, a ECCO publicou em 2024 as diretrizes clínica, de Gordon e colaboradores, e cirúrgica, de Adamina e colaboradores, do Crohn, e em 2026 atualizou as da retocolite, de Gisbert e colaboradores e Adamina e colaboradores. A britânica, de Moran e colaboradores no Gut em 2025, cobre as duas doenças. O consenso STRIDE-II, de Turner e colaboradores em Gastroenterology em 2021, define as metas do tratamento.

Cirurgia. O ensaio LIR!C, de Ponsioen e colaboradores no Lancet Gastroenterology and Hepatology em 2017, e seu seguimento, de Stevens e colaboradores em 2020, sustentam a ressecção ileocecal precoce em doença limitada. A meta-análise de Tsai e colaboradores, em 2021, dá o risco atual de cirurgia. O estudo de Rutgeerts e colaboradores, em 1990, é a base da colonoscopia pós-operatória.

Câncer e Brasil. Eaden e colaboradores, no Gut em 2001, e Olén e colaboradores, no Lancet em 2020, mostram o risco antigo e o atual. O SCENIC, de Laine e colaboradores em 2015, orienta a técnica da vigilância. O estudo de Quaresma e colaboradores, no Lancet Regional Health Americas em 2022, é o maior retrato nacional da doença.

Resumo prático

  • DII reúne Crohn e retocolite. A retocolite é contínua, superficial e restrita a cólon e reto. O Crohn é salteado, profundo e pode atingir qualquer ponto.
  • Compatível com DII não é diagnóstico fechado, e infecção, anti-inflamatório e tuberculose intestinal precisam ser afastados.
  • A meta é cicatrizar a mucosa. Corticoide é só para a crise.
  • Biológicos têm risco real e pequeno, precedido de triagem e vacinas.
  • No Crohn, a cirurgia trata complicações e pode ser escolha precoce em doença curta do íleo, seguida de colonoscopia em 6 a 12 meses.
  • Na retocolite, retirar cólon e reto elimina a doença intestinal.
  • A vigilância para câncer começa 8 anos após os sintomas, ou no diagnóstico e todo ano em quem tem colangite esclerosante.

Se o seu laudo trouxe alguma dessas palavras e você ainda não sabe em qual grupo está, agende uma avaliação com o Dr. Daniel Szor. A primeira conversa costuma organizar o que precisa ser feito agora, o que pode esperar e o que não precisa ser feito.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento devem ser individualizados.

Referências

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Perguntas frequentes

Doença de Crohn tem cura?
Não com remédio, até hoje. O Crohn é uma doença crônica, que alterna fases de atividade e de remissão. A cirurgia também não cura, porque retira o trecho doente, mas a inflamação costuma voltar perto da emenda: em um estudo clássico da Universidade de Leuven, 73% dos operados tinham lesão visível na colonoscopia dentro de 1 ano, embora só 20% tivessem sintomas. O que existe, e é o objetivo do tratamento, é a remissão profunda e duradoura, com mucosa cicatrizada, exames normais e vida sem limitação. Muita gente passa anos assim. Na retocolite a situação é diferente: retirar o cólon e o reto elimina a doença intestinal, ao custo de uma cirurgia grande e de um reservatório feito com o intestino delgado.
Qual a diferença entre doença de Crohn e retocolite ulcerativa?
A retocolite atinge apenas o intestino grosso, quase sempre começa no reto e se estende de forma contínua, sem pular trechos, e inflama só a camada mais interna da parede. O sintoma típico é diarreia com sangue e urgência para evacuar. O Crohn pode atingir qualquer ponto do tubo digestivo, da boca ao ânus, mais comumente o final do intestino delgado, pula trechos sadios e inflama a parede inteira. Por isso causa estreitamentos, fístulas e abscessos, inclusive ao redor do ânus, e costuma dar dor e emagrecimento mais do que sangramento. A diferença importa porque muda o tratamento e o papel da cirurgia.
Calprotectina alta significa doença de Crohn?
Não necessariamente. A calprotectina é uma proteína dos glóbulos brancos que aparece nas fezes quando há inflamação no intestino, de qualquer causa. Ela sobe em Crohn e retocolite, mas também em infecções intestinais, com uso de anti-inflamatórios, em pólipos e em câncer. O valor dela está em separar quem tem inflamação de quem não tem: numa meta-análise publicada no BMJ em 2010, em adultos, o exame teve sensibilidade de 93% e especificidade de 96% para doença inflamatória intestinal, e usá-lo como filtro reduziria em 67% as colonoscopias. A diretriz americana de 2025 usa corte de 50 a 100 microgramas por grama. Calprotectina normal torna a DII pouco provável. Calprotectina alta pede investigação, geralmente com colonoscopia.
Doença inflamatória intestinal vira câncer?
O risco de câncer colorretal é maior do que o da população, mas bem menor do que se imaginava. Uma meta-análise de 2001 estimava 2% em 10 anos, 8% em 20 anos e 18% em 30 anos de retocolite, com dados antigos. Um estudo escandinavo de 2020, com 96.447 pacientes, mostrou taxa 66% maior que a da população no período total e só 38% maior nos anos mais recentes, o que equivale a um caso adicional a cada 1.058 pacientes acompanhados por 5 anos. O risco se concentra em quem tem doença extensa no cólon, muitos anos de inflamação ativa ou colangite esclerosante primária. A proteção é a colonoscopia de vigilância, que começa cerca de 8 anos após o início dos sintomas.
Qual a melhor dieta para Crohn e retocolite?
Não existe dieta que cure ou que previna crises de forma consistente. A orientação da associação americana de gastroenterologia, de 2024, é uma dieta de padrão mediterrâneo, com frutas, verduras, azeite, carboidratos complexos e proteína magra, e pouco ultraprocessado, açúcar e sal. Menos carne vermelha e processada pode reduzir crises de retocolite. Quem tem estreitamento no intestino precisa de cuidado com fibra grossa, cozinhando e amolecendo frutas e verduras. Em crianças com Crohn, a nutrição enteral exclusiva, só com fórmula líquida por algumas semanas, é tratamento de primeira linha. Cortar alimentos por conta própria costuma levar a desnutrição, não a remissão.
Quem tem Crohn ou retocolite pode engravidar?
Pode, e a maioria tem gestação sem complicação. A regra da diretriz europeia de 2023 é engravidar com a doença em remissão, porque doença ativa na concepção aumenta o risco de piora na gestação e reduz a fertilidade. A maior parte dos remédios deve ser mantida durante a gravidez, incluindo os anti-TNF, porque a crise é mais perigosa para o bebê do que o tratamento. As exceções são o metotrexato, contraindicado, e os comprimidos das classes JAK e S1P, que devem ser trocados antes de engravidar. Cirurgias pélvicas, como a bolsa ileal, reduzem a fertilidade feminina, e a via laparoscópica pode diminuir esse efeito. Planeje a gravidez com o médico que acompanha a doença.
Quando a doença de Crohn precisa de cirurgia?
Quando existe uma complicação que o remédio não resolve ou quando o tratamento clínico falha. As situações mais comuns são estreitamento fibrótico que obstrui o intestino, fístula, abscesso, perfuração, sangramento e doença que continua ativa apesar dos remédios adequados. Em coortes recentes, cerca de 18% das pessoas com Crohn passam por cirurgia em 5 anos e 26% em 10 anos. Há também uma indicação mais precoce: no estudo LIR!C, em doença limitada ao final do íleo, com até 40 cm, que não respondeu a corticoide ou imunossupressor, a retirada por videolaparoscopia teve qualidade de vida semelhante ao infliximabe em 1 ano. A cirurgia não cura o Crohn, e por isso vem acompanhada de colonoscopia de controle entre 6 e 12 meses depois.
Remédio biológico é perigoso?
Ele tem riscos reais, porém pequenos, e precisam ser comparados ao risco de deixar a inflamação ativa. O principal é infecção, e por isso antes de começar se pesquisam tuberculose e hepatite B e se atualizam as vacinas, evitando as vacinas vivas, como febre amarela, durante o tratamento. Sobre linfoma, o maior estudo, com 189.289 pacientes franceses, encontrou 0,26 caso por 1.000 pessoas por ano sem esses remédios e 0,41 com anti-TNF sozinho, cerca de 1 caso a mais a cada 6.700 pessoas tratadas por ano. Com anti-TNF combinado a azatioprina a taxa foi de 0,95 por 1.000. Os biológicos também podem ser mantidos na gestação. Doença descontrolada, uso repetido de corticoide e cirurgias evitáveis costumam fazer mais estrago do que o remédio.

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