Dr. Daniel Szor
Sangue oculto nas fezes deu positivo, é câncer? O que fazer e em quanto tempo
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Sangue oculto nas fezes deu positivo, é câncer? O que fazer e em quanto tempo

7 de setembro de 2026 · leitura de 24 min

Resposta rápida

Um exame de sangue oculto nas fezes positivo não é diagnóstico de câncer. Ele apenas mostra que existe uma pequena quantidade de sangue no intestino e que é preciso descobrir de onde ela vem. Nos maiores estudos, cerca de 3 em cada 100 pessoas com teste positivo tinham câncer colorretal, e a maioria dos demais tinha hemorroidas, pólipos, diverticulose ou outras causas benignas. O próximo passo é sempre a colonoscopia, e não repetir o teste de fezes. O ideal é fazer a colonoscopia em até 30 a 90 dias, com calma e preparo adequado. Atrasos de até 9 meses não aumentaram o risco nos estudos, mas esperar mais de 1 ano dobrou a chance de o câncer ser encontrado e aumentou a chance de estar em fase avançada. Se houver anemia, emagrecimento ou sangramento persistente, a investigação deve ser mais rápida.

O envelope chegou, ou o resultado apareceu no aplicativo do laboratório. Na linha da pesquisa de sangue oculto nas fezes está escrito "positivo". A partir desse momento, a cabeça de quase todo mundo vai para o mesmo lugar. É câncer?

A resposta curta é que, na grande maioria das vezes, não é. A resposta completa é um pouco mais longa e vale a pena ser lida com calma, porque ela explica o que fazer e, principalmente, em quanto tempo fazer.

Setembro é um mês oportuno para essa conversa. É o Setembro Verde, período de conscientização sobre o câncer colorretal, e no dia 27 de setembro se comemora o Dia Nacional de Combate ao Câncer de Intestino. Em 2026 há um motivo a mais. Desde agosto, o teste imunoquímico fecal faz parte do rastreamento oferecido pelo SUS, e milhões de brasileiros vão receber, pela primeira vez, um resultado como o seu. Muitos deles vão sentir a mesma ansiedade.

Este texto percorre o caminho de quem acabou de receber um resultado positivo. O que o exame mede, o que o resultado significa, quais são as causas mais comuns, qual é o erro que mais atrasa o diagnóstico e qual é o prazo razoável para fazer a colonoscopia.

O que o exame de sangue oculto realmente mede

Uma lesão na parede do intestino grosso, seja um pólipo, uma inflamação ou um tumor, pode perder pequenas quantidades de sangue. Esse sangue se mistura às fezes e, na maioria das vezes, não é visível a olho nu. Por isso o nome "oculto".

O exame de sangue oculto nas fezes procura esse sangue invisível. Existem dois tipos principais de teste, e a diferença entre eles importa.

O teste antigo, de guaiaco

O teste de guaiaco foi usado por décadas. Ele detecta uma reação química do grupo heme da hemoglobina, que também ocorre com substâncias de origem animal e vegetal. Por isso ele sofre interferência de carne vermelha, alguns vegetais e vitamina C, e exige dieta restrita por alguns dias antes da coleta. Também precisa de três amostras de fezes de dias diferentes. Sua sensibilidade para câncer é baixa. Muitos laboratórios já não o utilizam.

O teste moderno, imunoquímico (FIT)

O teste imunoquímico fecal, conhecido pela sigla FIT, usa anticorpos que reconhecem apenas a hemoglobina humana. Isso resolve dois problemas de uma vez. Não há interferência de alimentos, então não é preciso dieta antes da coleta. E, como a hemoglobina que vem do estômago ou do intestino delgado é digerida ao longo do caminho, o FIT detecta principalmente o sangue que vem do intestino grosso e do reto, que são justamente as regiões onde o câncer colorretal aparece.

Uma única amostra é suficiente. A coleta é feita em casa, com um pequeno tubo que vem com uma haste para pegar uma quantidade mínima de fezes. Muitos laboratórios usam versões quantitativas, que informam a concentração de hemoglobina por grama de fezes, e o laudo diz "positivo" quando essa concentração ultrapassa um ponto de corte.

É esse teste, o FIT, que passou a fazer parte do rastreamento no SUS. E é dele que trata este texto, embora a lógica geral também valha para quem fez o teste de guaiaco.

O que o exame não diz

Aqui está o ponto central. O FIT informa que existe sangue nas fezes acima de um certo nível. Ele não diz de onde esse sangue vem. Não diz se é de uma hemorroida, de um pólipo, de um divertículo ou de um tumor. Não diz se o problema é grave ou banal. Não diz se você tem câncer.

Pense no exame como um alarme de fumaça. Quando ele dispara, pode ser uma torrada queimada ou um princípio de incêndio. O alarme não sabe a diferença. Ele só sabe que precisa que alguém vá olhar.

Positivo não é diagnóstico, é um sinal para olhar

O maior estudo sobre o que acontece depois de um FIT positivo foi publicado em 2017 na revista JAMA por Douglas Corley e colaboradores. Eles acompanharam 70.124 pessoas de 50 a 70 anos com teste positivo dentro de um grande sistema de saúde nos Estados Unidos.

O resultado ajuda a colocar o medo em perspectiva. Entre essas 70 mil pessoas, 2.191 tinham câncer colorretal. Isso corresponde a 3,1%. Dessas, 601, ou 0,9% do total, tinham doença em estágio avançado.

Dito de outra forma, cerca de 97 em cada 100 pessoas com FIT positivo não tinham câncer. A maioria tinha alguma causa benigna para o sangramento, e uma parte relevante tinha pólipos, que são lesões que podem virar câncer ao longo dos anos, mas que ainda não eram câncer e puderam ser retiradas a tempo.

Esses 3% não são um número para ser ignorado. Um em cada 33 é uma proporção alta para uma doença tão séria. É exatamente por isso que o exame existe e por isso que o resultado positivo precisa ser investigado. A questão é o tom com que a investigação deve ser feita. Não é uma emergência. É uma tarefa a ser cumprida nas próximas semanas, com calma e método.

Também ajuda entender o outro lado. O FIT, quando feito uma única vez, tem sensibilidade para câncer de cerca de 77% e especificidade de cerca de 95%, segundo uma revisão sistemática publicada em 2026 na revista Preventive Medicine Reports. Isso quer dizer que ele encontra a maioria dos cânceres, mas não todos, e que cerca de 5 em cada 100 pessoas sem câncer terão um resultado positivo por outras causas. É um exame de triagem, desenhado para separar quem precisa de colonoscopia de quem pode esperar. Ele cumpre bem esse papel. A colonoscopia, por sua vez, tem sensibilidade de 97% e especificidade de 99% para câncer, e é ela que dá a resposta final.

As causas mais comuns de um resultado positivo

Se apenas 3% são câncer, de onde vem o sangue dos outros 97%? A lista abaixo reúne as causas mais frequentes. A ordem varia conforme a idade e o contexto de cada pessoa, e uma pessoa pode ter mais de uma ao mesmo tempo.

Causa O que é Sinais que costumam acompanhar
Hemorroidas Veias dilatadas do canal anal, internas ou externas Sangue vivo no papel ou no vaso, ardor, sensação de peso, às vezes nenhum sintoma
Fissura anal Pequeno corte na pele do canal anal Dor aguda ao evacuar, sangue vivo em pequena quantidade
Pólipos Crescimentos benignos na parede do intestino; alguns podem virar câncer com o tempo Quase sempre sem sintomas
Diverticulose Pequenas bolsas na parede do cólon, comuns após os 50 anos Em geral sem sintomas; sangramento ocasional, às vezes de volume maior
Angiodisplasia Vasos anormais e frágeis na parede intestinal, mais comuns em idosos Sangramento lento e recorrente, anemia
Doença inflamatória intestinal Doença de Crohn e retocolite ulcerativa Diarreia com sangue ou muco, dor abdominal, emagrecimento
Câncer colorretal Tumor maligno do cólon ou do reto Frequentemente sem sintomas no início; depois, mudança do hábito intestinal, anemia, emagrecimento

Alguns comentários sobre cada uma delas.

Hemorroidas são a causa mais comum de sangue nas fezes em qualquer idade e uma das queixas mais frequentes do consultório. Elas podem deixar o FIT positivo mesmo sem sangramento visível. O texto sobre sangramento por hemorroida e quando ele é grave explica os sinais que diferenciam um sangramento anal típico de um sangramento que vem de mais acima.

A fissura anal é fácil de reconhecer pela dor, que costuma ser intensa durante e logo após a evacuação. O sangramento é pequeno e vivo.

Os pólipos merecem atenção especial. Eles não doem, não causam sintomas e só são descobertos na colonoscopia. Um tipo específico, o adenoma, é o precursor da maioria dos cânceres colorretais. A transformação de adenoma em câncer leva muitos anos. Encontrar e retirar um adenoma na colonoscopia é, na prática, prevenir um câncer que ainda não existe. Esse é o principal motivo pelo qual o rastreamento funciona.

A diverticulose é muito comum após os 50 anos e, na maioria das pessoas, nunca causa problema. Quando sangra, o volume pode ser grande e assustar, mas costuma parar sozinho. O sangramento diverticular tem características próprias que o médico reconhece.

A doença inflamatória intestinal costuma dar outros sinais além do sangue oculto, como diarreia persistente, cólicas e perda de peso. Em quem tem esses sintomas, o FIT positivo reforça a necessidade de colonoscopia com biópsias.

Por fim, o câncer colorretal. É um dos tipos de câncer mais frequentes no Brasil, com 53.810 casos novos estimados por ano no período 2026-2028, segundo o INCA. Sua característica mais traiçoeira é o silêncio. Nas fases iniciais, quando a chance de cura é maior, ele não costuma causar sintoma nenhum. O sangue oculto nas fezes pode ser o único sinal.

O erro mais comum, repetir o exame ou esperar passar

Diante de um resultado positivo, duas reações são frequentes e as duas atrasam o diagnóstico.

A primeira é repetir o exame de fezes para "confirmar". Parece lógico. Se o segundo der negativo, o primeiro foi um engano, certo? Não é assim que funciona. Pólipos e tumores sangram de forma intermitente. Em um dia sangram, no outro não. Um segundo teste negativo não anula o primeiro. Ele apenas informa que, naquela amostra específica, não havia sangue acima do limite. A lesão que sangrou na primeira vez continua lá.

As diretrizes de rastreamento em todo o mundo são unânimes nesse ponto. Um FIT positivo não deve ser repetido. Ele deve ser seguido de colonoscopia. Repetir o exame gasta tempo, gera resultados contraditórios e, no pior cenário, produz uma falsa tranquilidade que faz a pessoa adiar por anos a investigação de um tumor que estava em fase inicial.

A segunda reação é esperar. Não sinto nada, não vi sangue, deve ter sido alguma coisa que comi. Vou deixar para ver depois. Como já explicado, o FIT não sofre interferência de alimentos, e a ausência de sintomas não significa ausência de lesão. Pelo contrário, é justamente nas lesões sem sintomas que o exame tem mais valor.

Também não faz sentido substituir a colonoscopia por outros exames. Exame de sangue, ultrassonografia e tomografia comum não enxergam pólipos pequenos nem lesões planas. A retossigmoidoscopia examina só a parte final do intestino e deixa o restante do cólon sem avaliação. Só a colonoscopia olha diretamente todo o intestino grosso e retira o pólipo no mesmo momento.

A resposta para o FIT positivo tem um nome só. Colonoscopia.

Em quanto tempo fazer a colonoscopia

Essa é a pergunta que mais importa na prática, e a pesquisa oferece uma resposta bastante clara.

No estudo de Corley, publicado no JAMA em 2017, os pesquisadores compararam o que aconteceu com pessoas que fizeram a colonoscopia em diferentes prazos após o FIT positivo. O grupo de referência foi o das pessoas que fizeram o exame entre 8 e 30 dias após o resultado.

Os achados foram os seguintes:

  • Nos atrasos de até 9 meses, não houve aumento significativo na chance de encontrar câncer, nem na chance de o câncer estar em fase avançada.
  • Com atraso de 10 a 12 meses, a chance de encontrar câncer foi 48% maior (OR 1,48; IC 95% 1,05-2,08), e a chance de doença avançada quase dobrou (OR 1,97; IC 95% 1,14-3,42).
  • Com atraso acima de 12 meses, a chance de câncer mais que dobrou (OR 2,25; IC 95% 1,89-2,68), e a chance de doença avançada mais que triplicou (OR 3,22; IC 95% 2,44-4,25).

O que isso quer dizer para quem acabou de receber o resultado? Duas coisas.

A primeira é que não existe motivo para pânico. Não é necessário fazer a colonoscopia amanhã. Há tempo para escolher o serviço, conversar com o médico, organizar a agenda, fazer o preparo com tranquilidade. Dentro de alguns meses, a diferença de risco é pequena.

A segunda é que existe um limite. A partir de 10 meses, o risco sobe de forma significativa, e depois de 1 ano ele mais que dobra. Quem adia a colonoscopia por mais de um ano está aceitando uma chance real de transformar um câncer inicial em um câncer avançado.

Juntando os dois pontos, a recomendação prática de sociedades médicas e programas de rastreamento é fazer a colonoscopia em até 30 a 90 dias após o resultado positivo. Esse prazo permite organizar tudo sem correria e fica muito longe da zona de risco. Se for possível fazer antes, ótimo. Se demorar alguns meses por alguma dificuldade de agenda, ainda está dentro do período em que o estudo não mostrou aumento de risco. O que não pode acontecer é o exame ficar para o ano seguinte.

Como é a colonoscopia depois do positivo

A colonoscopia é um exame feito sob sedação, no qual um tubo flexível com câmera na ponta percorre todo o intestino grosso, do reto até o ceco, onde o intestino grosso encontra o intestino delgado. O paciente dorme e não sente dor. O exame em si dura de 20 a 40 minutos.

Depois de um FIT positivo, a colonoscopia é chamada de diagnóstica, e não de rastreamento. Na prática, o exame é o mesmo. A diferença está na atenção redobrada a qualquer alteração e na expectativa de encontrar alguma coisa, o que é bom, porque essa é justamente a razão do exame.

O preparo

A parte mais trabalhosa da colonoscopia não é o exame. É o preparo, que consiste em dieta sem resíduos por um ou dois dias e no uso de uma solução laxativa que limpa o intestino por completo. Um intestino bem limpo é o que permite ao médico enxergar pólipos pequenos e lesões planas. Um preparo mal feito pode esconder uma lesão e obrigar a repetir o exame.

O guia sobre como se preparar para a colonoscopia explica passo a passo a dieta, os horários e o que fazer com os medicamentos de uso contínuo. Quem usa anticoagulantes ou antiagregantes, como aspirina ou clopidogrel, precisa de orientação específica antes do exame, porque pode haver retirada de pólipos.

Se houver pólipo, ele é retirado na hora

Uma das grandes vantagens da colonoscopia é que ela não apenas encontra o pólipo. Ela o retira. Uma alça passa pelo canal do aparelho, envolve o pólipo e o corta, com ou sem corrente elétrica. O paciente não sente nada, e o procedimento não exige internação. O pólipo vai para análise no microscópio, e o resultado, chamado de anatomopatológico, sai em uma a duas semanas.

Esse resultado define os próximos passos. Se o pólipo for um adenoma pequeno e sem sinais de transformação, a colonoscopia é repetida em alguns anos, conforme o número e o tamanho dos pólipos encontrados. Se for um pólipo hiperplásico pequeno, que não tem potencial de virar câncer, o intervalo pode ser ainda maior. Se houver células malignas, o caso é discutido com um cirurgião.

Se o exame for normal

Uma colonoscopia completa, com preparo adequado, que não encontra nenhuma lesão, encerra a investigação do FIT positivo para a maioria das pessoas. O sangue veio provavelmente de uma causa anal ou de uma lesão pequena que já cicatrizou. O rastreamento pode voltar ao intervalo normal, em geral 10 anos para nova colonoscopia, ou conforme a orientação do médico.

Em situações específicas, como anemia por falta de ferro persistente com colonoscopia normal, o médico pode indicar uma endoscopia digestiva alta ou exames do intestino delgado, porque o sangue pode vir de mais acima. Isso é a exceção, não a regra.

E se eu tiver hemorroidas, posso assumir que é isso?

Essa é uma das perguntas mais frequentes, e a resposta é um não firme.

É verdade que as hemorroidas são a causa mais comum de sangue nas fezes. É verdade que elas podem deixar o FIT positivo. Mas há um problema lógico. Ter hemorroidas não protege ninguém de ter um pólipo ou um tumor mais acima no intestino. As duas condições são independentes e, como ambas são comuns depois dos 45 anos, coexistem em muita gente.

Atribuir o sangramento às hemorroidas sem olhar o resto do cólon é, historicamente, um dos erros que mais atrasam o diagnóstico do câncer colorretal. Pacientes passam meses ou anos tratando "hemorroida" com pomadas enquanto um tumor de reto ou de sigmoide cresce em silêncio.

Um cirurgião do aparelho digestivo ou coloproctologista pode examinar o canal anal no consultório e confirmar as hemorroidas. Esse exame é útil e faz parte da avaliação. Mas ele não substitui a colonoscopia depois de um FIT positivo. Os dois exames respondem perguntas diferentes. O exame proctológico diz se há hemorroidas. A colonoscopia diz se há algo mais.

Depois dos 45 ou 50 anos, a regra é simples. FIT positivo mais hemorroidas é igual a colonoscopia. Não há atalho.

Sinais de alarme que mudam a urgência

Até aqui, a mensagem foi de calma. Investigar, sim, com um prazo razoável, sem desespero. Existem situações, porém, em que o prazo deve ser encurtado e a colonoscopia deve ser priorizada, porque a probabilidade de uma lesão importante é maior.

  • Anemia. Um hemograma mostrando hemoglobina baixa, principalmente com ferro e ferritina baixos, indica que o sangramento vem acontecendo há tempo e em quantidade suficiente para esgotar as reservas do corpo. Anemia por falta de ferro em adulto, sem outra explicação, é considerada sangramento digestivo até prova em contrário.
  • Emagrecimento sem motivo. Perda de peso sem dieta ou mudança de rotina é um sinal que nunca deve ser ignorado.
  • Mudança do hábito intestinal. Intestino que sempre funcionou de um jeito e passou a funcionar de outro nas últimas semanas ou meses. Diarreia persistente, prisão de ventre nova, fezes mais finas, sensação de evacuação incompleta.
  • Sangue visível e persistente. Sangue vivo ou escuro misturado às fezes, repetidamente, principalmente sem dor anal. Sangue escuro sugere origem mais alta no intestino.
  • Dor abdominal nova. Cólicas ou dor persistente, em especial com distensão da barriga.
  • Massa palpável. Sentir um caroço no abdome.
  • História familiar. Pai, mãe, irmãos ou filhos com câncer colorretal ou com pólipos avançados, principalmente antes dos 60 anos.

O texto sobre os sinais de câncer colorretal detalha cada um desses pontos. Quando um ou mais deles acompanha o FIT positivo, a pessoa deixa de estar em uma situação de rastreamento e passa a estar em uma situação de investigação de sintomas. A colonoscopia deve ser feita nas próximas semanas, e não nos próximos meses.

O outro lado também importa. Não ter nenhum desses sinais é uma boa notícia e reduz a probabilidade de câncer, mas não elimina a necessidade da colonoscopia. A maioria dos cânceres encontrados por rastreamento está em pessoas que não sentiam nada.

Se encontrarem um pólipo ou se for câncer, o que vem depois

Ninguém gosta de pensar nessa parte, mas saber o que vem depois costuma reduzir a ansiedade em vez de aumentar.

Quando é um pólipo

Esse é o desfecho mais comum quando a colonoscopia encontra alguma coisa. O pólipo é retirado durante o exame, o resultado do microscópio chega em uma a duas semanas, e a pessoa recebe a orientação sobre quando repetir a colonoscopia. Fim da história para a maioria. A remoção de um adenoma é um dos atos mais eficazes de prevenção de câncer que existem na medicina.

Quando é câncer

Se a biópsia confirmar câncer colorretal, o passo seguinte é o estadiamento, que é o conjunto de exames para saber o tamanho do tumor e se ele se espalhou. Isso inclui tomografia do tórax e do abdome, exames de sangue com o marcador CEA e, no caso de tumores do reto, ressonância magnética da pelve.

O tratamento principal do câncer de cólon é a cirurgia, que retira o segmento do intestino onde está o tumor junto com os gânglios linfáticos da região. Em muitos casos ela é feita por videolaparoscopia ou com auxílio de robô, com pequenas incisões. Dependendo do estádio, a quimioterapia pode ser indicada depois da cirurgia. No câncer de reto, é comum fazer quimioterapia e radioterapia antes da operação.

O ponto que mais importa para quem está lendo este texto é o seguinte. A chance de cura depende do estádio no momento do diagnóstico. O levantamento do A.C.Camargo Cancer Center divulgado em 2026 encontrou sobrevida de 84,4% quando o câncer é diagnosticado em estágio inicial, contra 52,7% quando o diagnóstico é feito em estágio avançado. É uma diferença enorme, e ela é definida em grande parte pelo tempo entre o primeiro sinal e o diagnóstico.

Um FIT positivo investigado nas semanas seguintes tende a encontrar tumores no primeiro grupo. Um FIT positivo guardado na gaveta por um ou dois anos tende a encontrar tumores no segundo. Isso resume por que este texto insiste tanto no prazo.

O que muda com o FIT no SUS em 2026

Durante muitos anos, o Brasil não tinha um programa organizado de rastreamento do câncer colorretal. O exame de sangue oculto existia em alguns serviços, e a colonoscopia era feita principalmente para quem tinha sintomas ou para quem tinha acesso a planos de saúde. O resultado é que uma parte grande dos diagnósticos acontece em fase avançada.

Isso começou a mudar em 2026. A Portaria SAES/MS 4.642, de 6 de agosto de 2026, incluiu o teste imunoquímico fecal no SUS como exame de rastreamento do câncer colorretal. Os pontos principais são:

  • Indicação para pessoas de 50 a 75 anos, sem sintomas e sem fatores de risco especiais.
  • Periodicidade bienal, ou seja, um exame a cada 2 anos.
  • Mais de 40 milhões de brasileiros na faixa etária elegível.

Para quem recebe um resultado positivo pelo SUS, o caminho é o mesmo descrito neste texto. A unidade de saúde deve encaminhar para colonoscopia. O desafio, que os próprios gestores reconhecem, é garantir que a colonoscopia aconteça em prazo razoável. Um programa de rastreamento só funciona se o teste positivo for seguido de investigação. A pessoa que recebe o resultado tem um papel nisso. Perguntar, insistir, não deixar o encaminhamento se perder.

O rastreamento por FIT também é uma boa opção para quem tem plano de saúde ou faz exames por conta própria e não quer, ou não pode, fazer colonoscopia como primeiro exame. O texto sobre rastreamento do câncer colorretal e quando começar compara as estratégias e explica em que situações a colonoscopia direta é preferível, como na história familiar de câncer ou de pólipos avançados.

Uma observação sobre a idade. A portaria brasileira adotou a faixa de 50 a 75 anos. Várias sociedades médicas, no Brasil e no exterior, recomendam começar o rastreamento aos 45 anos para pessoas de risco médio, por causa do aumento de casos em adultos mais jovens. Não há contradição. A portaria define o que o SUS oferece de forma organizada. A recomendação individual pode ser diferente, e essa é uma conversa a ter com o médico.

Fiz o exame antes dos 50 por conta própria e deu positivo

Cada vez mais pessoas na faixa dos 30 e 40 anos fazem o FIT por iniciativa própria, por pedido de um médico atento ou dentro de um check-up. Um resultado positivo nessa faixa etária gera uma dúvida específica. Vale a mesma regra?

Vale, com uma ressalva estatística que ajuda a acalmar. Como o câncer colorretal é menos frequente em pessoas mais jovens, a chance de um FIT positivo corresponder a câncer também é menor. Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Cancers, reunindo estudos em pessoas de 40 a 49 anos, encontrou um valor preditivo positivo do FIT para câncer entre 2,7% e 6,8%, dependendo do estudo e do ponto de corte. O valor preditivo negativo foi de 99,5% ou mais, o que significa que um FIT negativo nessa faixa etária é muito tranquilizador.

A faixa de 2,7% a 6,8% é parecida com a das pessoas mais velhas, o que talvez surpreenda. Uma explicação provável é que, em quem tem menos de 50 anos, o teste costuma ser feito em pessoas selecionadas, muitas vezes com algum sintoma ou história familiar, e não em uma população geral sem sintomas. De qualquer forma, o recado é o mesmo. A maioria não é câncer, mas a chance é real e merece colonoscopia.

Há um segundo motivo para não relaxar. O câncer de intestino em jovens está aumentando. Um estudo brasileiro do A.C.Camargo Cancer Center, divulgado em março de 2026, analisou 5.559 casos atendidos entre 2000 e 2023 e encontrou aumento de 7,6% ao ano nos casos abaixo de 50 anos, chegando a 8,5% ao ano na faixa de 30 a 39 anos. Esse aumento é observado em vários países e ainda não tem uma explicação única. Dieta, obesidade, sedentarismo e alterações da flora intestinal são hipóteses em estudo.

Em adultos jovens, o diagnóstico costuma demorar mais, porque nem o paciente nem o médico pensam em câncer de intestino. Sintomas são atribuídos a hemorroidas, intestino irritável ou estresse. Um FIT positivo nessa idade é uma oportunidade de encurtar esse caminho. Não deve ser desperdiçada.

O que diz a pesquisa recente

Os números usados neste texto vêm de estudos com desenho sólido e populações grandes. Um resumo dos principais:

O estudo de Corley e colaboradores (JAMA, 2017) é a referência sobre o prazo. Com 70.124 pessoas com FIT positivo, mostrou que 3,1% tinham câncer, 0,9% deles em estágio avançado, e que o risco de câncer e de doença avançada subia de forma significativa a partir de 10 meses de atraso, dobrando ou mais após 12 meses. Atrasos de até 9 meses não mostraram aumento significativo.

A revisão de Tun e colaboradores (Preventive Medicine Reports, 2026) reuniu estudos de acurácia dos exames de rastreamento e encontrou, para o FIT em aplicação única, sensibilidade de 77% (IC 95% 67-85%) e especificidade de 95% (93-96%) para câncer colorretal. Para a colonoscopia, os valores foram 97% e 99%. O FIT não substitui a colonoscopia, mas seleciona bem quem precisa dela.

A revisão de Yeh e colaboradores (Cancers, 2023) avaliou o desempenho do FIT em pessoas de 40 a 49 anos e encontrou valor preditivo positivo para câncer de 2,7% a 6,8% e valor preditivo negativo de 99,5% ou mais. É a base para afirmar que o teste também é útil antes dos 50 anos.

No Brasil, a estimativa do INCA para 2026-2028 aponta 53.810 casos novos de câncer de cólon e reto por ano. E o levantamento do A.C.Camargo com 5.559 casos documentou o crescimento em adultos jovens, de 7,6% ao ano abaixo dos 50 anos, e a diferença de sobrevida entre o diagnóstico inicial (84,4%) e o avançado (52,7%).

Juntos, esses dados sustentam as três mensagens deste texto. O FIT positivo raramente é câncer, mas às vezes é. Não se confirma com outro teste de fezes, e sim com colonoscopia. E o prazo importa, com uma janela confortável de alguns meses e um limite claro em torno de 1 ano.

Um passo de cada vez

Receber um resultado positivo desperta medo, e o medo costuma paralisar ou apressar demais. Nenhuma das duas reações ajuda. O que ajuda é um plano simples.

Marcar uma consulta com um cirurgião do aparelho digestivo, um coloproctologista ou um gastroenterologista nas próximas semanas. Levar o resultado do exame e, se tiver, exames de sangue recentes. Contar a história completa, incluindo sintomas que pareçam sem importância e casos de câncer na família. Agendar a colonoscopia com um prazo de até 30 a 90 dias. Fazer o preparo com cuidado. E, na maioria das vezes, sair do exame mais tranquilo do que entrou.

Se o seu exame deu positivo, agende uma avaliação. Uma consulta e uma colonoscopia bem feitas resolvem a dúvida e, quando é preciso, resolvem também o problema.

Referências

  1. Corley DA, Jensen CD, Quinn VP, Doubeni CA, Zauber AG, Lee JK, et al. Association between time to colonoscopy after a positive fecal test result and risk of colorectal cancer and cancer stage at diagnosis. JAMA. 2017;317(16):1631-41. doi:10.1001/jama.2017.3634
  2. Tun SNL, et al. Diagnostic accuracy of colorectal cancer screening tests: a systematic review and meta-analysis. Prev Med Rep. 2026. doi:10.1016/j.pmedr.2026.103551
  3. Yeh JH, et al. Performance of the fecal immunochemical test in colorectal cancer screening of adults aged 40 to 49 years: a systematic review and meta-analysis. Cancers (Basel). 2023;15(11):3006. doi:10.3390/cancers15113006
  4. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2025.
  5. Ministério da Saúde. Portaria SAES/MS nº 4.642, de 6 de agosto de 2026. Inclui o teste imunoquímico fecal no rastreamento do câncer colorretal no SUS. Diário Oficial da União; 2026.
  6. A.C.Camargo Cancer Center. Casos de câncer colorretal em jovens crescem no Brasil: análise de 5.559 casos entre 2000 e 2023. Reportagem CNN Brasil, 3 de março de 2026.

Perguntas frequentes

Sangue oculto positivo é sempre câncer?
Não. No maior estudo sobre o assunto, com mais de 70 mil pessoas com teste positivo, cerca de 3% tinham câncer colorretal. A grande maioria dos resultados positivos vem de hemorroidas, fissura anal, pólipos benignos, diverticulose ou inflamação do intestino. O exame só informa que há sangue nas fezes, não a causa. Quem descobre a origem é a colonoscopia. O teste positivo é um sinal para investigar, não um diagnóstico.
Posso repetir o exame de sangue oculto para confirmar?
Não é recomendado. O sangramento de pólipos e tumores é intermitente, então um segundo teste pode dar negativo mesmo com uma lesão presente. Repetir o exame só atrasa a resposta e cria uma falsa sensação de segurança. As diretrizes são claras nesse ponto. Quem tem um teste positivo deve seguir direto para a colonoscopia, que examina todo o intestino grosso e permite retirar pólipos no mesmo procedimento.
Em quanto tempo devo fazer a colonoscopia depois do resultado positivo?
O ideal é fazer em até 30 a 90 dias. Não é uma emergência e não precisa ser feita na mesma semana, mas também não deve ficar para o ano seguinte. Um estudo com 70 mil pessoas mostrou que esperar entre 10 e 12 meses aumentou em quase 50% a chance de encontrar câncer, e esperar mais de 12 meses dobrou esse risco. Se houver anemia, emagrecimento ou sangramento visível, o prazo deve ser mais curto.
Tenho hemorroidas. Posso assumir que o sangue vem delas?
Não. Hemorroidas são muito comuns e podem, sim, deixar o teste positivo. O problema é que ter hemorroidas não impede ninguém de ter também um pólipo ou um tumor mais acima no intestino. As duas condições coexistem com frequência, principalmente depois dos 45 anos. Atribuir o resultado às hemorroidas sem examinar o resto do cólon é um dos erros que mais atrasam o diagnóstico de câncer colorretal.
Fiz o exame antes dos 50 anos e deu positivo. Preciso me preocupar?
A chance de câncer é menor do que em pessoas mais velhas, mas não é zero. Entre 40 e 49 anos, o valor preditivo positivo do teste para câncer fica entre 2,7% e 6,8%, segundo uma revisão de 2023. O câncer de intestino vem aumentando em adultos jovens no Brasil e no mundo. Um teste positivo em qualquer idade merece colonoscopia. Não há motivo para pânico, mas também não há motivo para ignorar.
O que acontece se acharem um pólipo na colonoscopia?
Na maioria dos casos, o pólipo é retirado durante o próprio exame, sem cirurgia e sem dor, por meio de uma alça que passa pelo colonoscópio. O material vai para análise no microscópio. Se for um adenoma, que é o tipo que pode virar câncer com os anos, a retirada elimina esse risco. O resultado da biópsia define quando a próxima colonoscopia deve ser feita, em geral de 3 a 10 anos depois.
O exame de sangue oculto pode dar positivo por causa de alimentos ou remédios?
O teste imunoquímico moderno, chamado FIT, detecta apenas hemoglobina humana e não sofre interferência de carne vermelha, vegetais ou vitamina C, ao contrário do antigo teste de guaiaco. Anti-inflamatórios, aspirina e anticoagulantes podem aumentar sangramentos pequenos, mas não anulam o resultado. Um teste positivo em quem usa esses remédios ainda precisa ser investigado, porque a lesão que sangrou existe do mesmo jeito.
O FIT vai estar disponível no SUS?
Sim. A Portaria SAES/MS 4.642, de 6 de agosto de 2026, incluiu o teste imunoquímico fecal no SUS como exame de rastreamento do câncer colorretal. A indicação é para pessoas de 50 a 75 anos, sem sintomas, a cada 2 anos. Mais de 40 milhões de brasileiros são elegíveis. Quem tem resultado positivo deve ser encaminhado para colonoscopia.

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