Por muito tempo, o câncer de intestino — mais corretamente chamado de câncer colorretal — foi visto como uma doença de pessoas mais velhas. Esse cenário está mudando. No Brasil e no mundo, os casos vêm aumentando entre adultos jovens, com menos de 50 anos, o que tem levado sociedades médicas a repensar quando começar a rastrear a doença. Entender por que isso acontece — e, principalmente, não ignorar sinais só por ser jovem — pode fazer toda a diferença.
O que os dados mostram
O câncer colorretal está entre os cânceres mais incidentes do país — o segundo mais frequente em homens e em mulheres (excluído o câncer de pele não melanoma) e um dos que mais matam. As estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028, e o câncer de intestino está entre os que devem crescer nos próximos anos.
O ponto que mais chama a atenção dos especialistas é o aumento entre os jovens. Em séries internacionais, a incidência em pessoas de 20 a 39 anos vem crescendo entre 1% e 2,4% ao ano desde a década de 1980 — um padrão diferente do que se observa em outros tumores, e que também se reflete no Brasil. É exatamente essa tendência que levou o INCA a discutir a antecipação da idade de rastreamento.
Por que o câncer de intestino está aumentando em jovens?
Não há uma causa única, e a pesquisa ainda busca respostas. O mais provável é uma combinação de fatores ligados ao estilo de vida moderno, muitos deles presentes desde cedo:
- Obesidade e sedentarismo, hoje muito mais comuns em idades jovens;
- Dieta pobre em fibras (poucas frutas, verduras e grãos integrais);
- Consumo elevado de ultraprocessados e de carne vermelha e processada (embutidos, como salsicha, bacon e presunto);
- Álcool — não existe dose considerada segura em relação ao risco de câncer;
- Tabagismo (e outras formas de tabaco, como o narguilé).
Fatores como alterações na microbiota intestinal e a exposição a esses hábitos desde a infância e a adolescência estão entre as hipóteses estudadas. Uma parcela dos casos em jovens também tem componente hereditário, como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar, que merecem investigação quando há muitos casos de câncer na família.
Sinais de alerta que não devem ser ignorados
O maior problema do câncer de intestino no jovem não é a frequência — é o atraso no diagnóstico. Como a doença é "esperada" apenas em idosos, os sintomas costumam ser atribuídos a hemorroidas, intestino irritável ou má alimentação, e a investigação demora. No Brasil, cerca de dois terços dos casos são descobertos em fase avançada. Fique atento a:
- Sangue nas fezes ou sangramento pelo ânus — nem todo sangramento é hemorroida;
- Mudança persistente no hábito intestinal — diarreia ou prisão de ventre que não passa;
- Fezes finas (em fita) ou sensação de evacuação incompleta;
- Dor ou cólica abdominal frequente;
- Anemia por falta de ferro, muitas vezes descoberta em exame de rotina;
- Perda de peso sem explicação e cansaço.
A regra prática é simples: sintoma que persiste por semanas merece avaliação, independentemente da idade. Detalhamos cada um desses sinais em câncer colorretal: 5 sinais de alerta que merecem investigação.
A partir de que idade rastrear?
Para quem não tem sintomas nem fatores de risco, o rastreamento de rotina no Brasil começa aos 50 anos. Diante do aumento em pessoas mais jovens, há uma discussão em andamento — em avaliação pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) — para antecipar essa idade para 45 anos, como já é recomendado em países como os Estados Unidos.
Há situações em que o rastreamento deve começar bem antes:
- História familiar de câncer de intestino em parente de primeiro grau (pai, mãe ou irmão): em geral, iniciar 10 anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado, ou aos 40 anos, o que vier primeiro;
- Síndromes hereditárias conhecidas (como Lynch ou polipose familiar): acompanhamento específico, muitas vezes desde a adolescência ou início da vida adulta;
- Doença inflamatória intestinal (retocolite ulcerativa ou doença de Crohn) de longa data.
Independentemente da idade, ter sintomas muda tudo: quem apresenta os sinais acima deve investigar, e não esperar a idade de rastreamento.
Como é feito o rastreamento e por que ele funciona
O rastreamento pode começar por um exame de sangue oculto nas fezes (teste imunoquímico) e, quando alterado, seguir para a colonoscopia. A colonoscopia é o exame mais completo: examina todo o intestino grosso e permite retirar pólipos no mesmo momento. Esse é o grande trunfo — a maioria dos cânceres de intestino surge a partir de pólipos (adenomas) que levam anos para se transformar. Retirar o pólipo interrompe esse processo antes de virar câncer.
Por isso a colonoscopia é ao mesmo tempo um exame de diagnóstico e de prevenção. Explicamos melhor o exame em colonoscopia e sua importância na prevenção, o preparo em como se preparar para a colonoscopia, e o papel dos pólipos em adenomas de cólon e o risco de câncer.
O que você pode fazer desde já
Boa parte do risco é modificável. Manter peso saudável, praticar atividade física, comer mais fibras (frutas, verduras e grãos integrais), reduzir ultraprocessados e carne processada, moderar o álcool e não fumar diminuem o risco ao longo da vida — e trazem benefícios muito além do intestino.
Quando procurar avaliação
Vale procurar avaliação se você tem sintomas persistentes como sangue nas fezes, mudança no hábito intestinal, anemia ou perda de peso sem causa — em qualquer idade. E se há casos de câncer de intestino na sua família, converse com o médico sobre começar o rastreamento mais cedo, mesmo sem sintomas. Diagnosticado no início, o câncer colorretal é um dos tumores com maior chance de cura.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O tratamento e o rastreamento devem ser sempre individualizados.