Dr. Daniel Szor

Procedimento

Tratamento de Hemorroidas

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As hemorroidas são estruturas vasculares normais que todos temos no canal anal — coxins formados por vasos, músculo e tecido conjuntivo que participam do controle fino da continência. O problema que chamamos popularmente de “hemorroidas”, e que os médicos chamam de doença hemorroidária, surge quando esses coxins ficam dilatados, inflamados ou deslizam para fora de sua posição, passando a causar sintomas.

Esta página tem caráter informativo. A indicação de qualquer tratamento depende de avaliação individual, com exame clínico e, quando necessário, exames complementares.

Em resumo: hemorroidas são dilatações das veias do canal anal e podem causar sangramento, dor, coceira e prolapso (a saída do tecido ao evacuar). A maioria dos casos melhora com fibras, hidratação e medicações; casos mais avançados (grau 3 e 4) costumam exigir tratamento definitivo, que pode ser feito por ligadura elástica, THD (desarterialização guiada por Doppler), hemorroidopexia grampeada ou hemorroidectomia. A escolha da técnica depende do grau, da presença de prolapso e do tempo de recuperação — sempre após avaliação proctológica individualizada.

O que são hemorroidas

É uma condição extremamente comum: estima-se que mais da metade das pessoas terá algum sintoma relacionado às hemorroidas ao longo da vida, com maior frequência a partir dos 40 anos. Apesar disso, é um tema cercado de vergonha e desinformação — muita gente convive por anos com sangramento ou desconforto sem procurar ajuda, por receio do exame ou por acreditar que o único tratamento possível é uma cirurgia dolorosa.

A realidade é diferente: a maioria dos casos nem chega a precisar de cirurgia e, mesmo quando ela é indicada, as técnicas modernas mudaram bastante a experiência do paciente.

Hemorroidas internas e externas

A primeira distinção é anatômica e separa dois tipos com comportamentos diferentes:

  • Hemorroidas internas: originam-se acima da linha pectínea, em uma região com pouca sensibilidade à dor. Manifestam-se mais por sangramento (sangue vivo no papel ou no vaso) e por prolapso — a saída do tecido pelo ânus durante o esforço — do que por dor.
  • Hemorroidas externas: originam-se abaixo da linha pectínea, em área sensível. Quando inflamam ou, principalmente, quando formam um coágulo (trombose), provocam dor intensa e súbita e a percepção de um caroço endurecido na borda do ânus.

Não é raro ter o componente interno e externo ao mesmo tempo (doença hemorroidária mista), o que influencia a escolha do tratamento.

Os quatro graus das hemorroidas internas

A classificação em graus é o que mais orienta a conduta. Ela descreve o quanto o tecido desliza para fora do canal:

  • Grau I: sem prolapso. A queixa principal é o sangramento. Responde bem a medidas clínicas e a procedimentos simples.
  • Grau II: há prolapso ao esforço, mas o tecido retorna sozinho. Em geral, tratado sem cirurgia.
  • Grau III: o prolapso só retorna quando empurrado de volta manualmente. A partir daqui, procedimentos mais definitivos passam a ser mais indicados.
  • Grau IV: o prolapso é permanente e não há como reduzi-lo. É o estágio em que a cirurgia costuma ser a melhor opção.

O grau não é uma evolução obrigatória: muitas pessoas permanecem anos em grau I ou II sem progredir, sobretudo quando corrigem fatores como prisão de ventre e esforço excessivo.

Sintomas: como reconhecer

  • Sangramento: sangue vermelho-vivo, geralmente indolor, no papel, no vaso ou sobre as fezes — o sintoma mais característico das hemorroidas internas.
  • Prolapso: a sensação de “algo saindo” ao evacuar, que pode voltar sozinho ou precisar ser reposicionado.
  • Dor: mais típica das hemorroidas externas, sobretudo na trombose. Hemorroidas internas não complicadas costumam doer pouco.
  • Coceira e irritação: pela umidade, muco e dificuldade de higiene quando há prolapso.
  • Desconforto e sensação de evacuação incompleta.

Importante: sangramento anal nunca deve ser automaticamente atribuído a hemorroidas. Sangrar é sintoma de várias condições — algumas banais, outras sérias, incluindo pólipos e o câncer colorretal. Sangramento que muda de padrão, vem com alteração do hábito intestinal, emagrecimento, ou ocorre após os 45–50 anos merece investigação mais ampla.

Hemorroida ou outra coisa? Diagnósticos que se confundem

Boa parte de quem chega ao consultório “por causa das hemorroidas” tem, na verdade, outro problema anorretal — ou uma combinação deles:

  • Fissura anal: um pequeno corte na mucosa que causa dor intensa “em facada” ao evacuar e um filete de sangue.
  • Plicoma anal: uma dobra de pele residual, muitas vezes sequela de hemorroida externa ou fissura já resolvida; não sangra e não dói. Veja como diferenciar plicoma de hemorroida.
  • Trombose hemorroidária: o coágulo agudo em uma hemorroida externa, com dor forte e nódulo arroxeado. Entenda o tratamento da hemorroida trombosada.

Por isso o diagnóstico preciso — feito por exame, e não por suposição — é o ponto de partida de qualquer bom tratamento.

Quando procurar ajuda médica

Não é preciso esperar piorar. Vale agendar avaliação quando houver:

  • Sangramento ao evacuar, mesmo pequeno e ocasional;
  • Dor anal que atrapalha o dia a dia ou o ato de evacuar;
  • Sensação de prolapso, caroço ou abaulamento;
  • Coceira, ardência ou desconforto persistentes;
  • Sintomas que retornam apesar de pomadas e mudanças na dieta.

Há situações que pedem avaliação mais rápida: sangramento volumoso ou contínuo, dor súbita e muito intensa (sugestiva de trombose), febre associada ao desconforto anal ou qualquer sangramento em quem tem histórico familiar de câncer de intestino. Saiba quando o sangramento das hemorroidas é grave.

Qual especialista trata hemorroidas?

O tratamento é da alçada do coloproctologista e do cirurgião do aparelho digestivo — especialidades que lidam com as doenças do intestino e da região anorretal, preparadas tanto para o tratamento clínico quanto para os procedimentos de consultório e as cirurgias. Clínico geral e gastroenterologista costumam fazer a primeira abordagem e encaminhar os casos que exigem procedimento.

Como é a consulta e o diagnóstico

A avaliação proctológica é rápida, feita com privacidade e bem menos desconfortável do que a maioria imagina. Costuma seguir alguns passos:

  • Conversa (anamnese): sintomas, tempo de evolução, hábito intestinal, alimentação e antecedentes. Boa parte do diagnóstico se constrói aqui.
  • Inspeção e toque retal: avaliam prolapso, plicomas, fissuras, tônus do esfíncter e eventuais massas. Duram poucos minutos.
  • Anuscopia: com um pequeno aparelho, visualiza-se o canal anal por dentro e classificam-se as hemorroidas internas em seus graus.
  • Colonoscopia, quando indicada: não é necessária para todos; é solicitada para investigar o sangramento em pacientes com fatores de risco, idade acima de 45–50 anos ou histórico familiar de câncer colorretal.

Ao final, paciente e médico têm um diagnóstico claro — tipo, grau e condições associadas — e discutem juntos o melhor caminho de tratamento.

Tratamento clínico: a base de tudo

É o primeiro passo em quase todos os casos e, sozinho, resolve a maioria dos quadros leves a moderados:

  • Fibras e água: amolecem as fezes e reduzem o esforço para evacuar — a medida com maior evidência de benefício.
  • Hábito intestinal: evitar passar muito tempo no vaso, não forçar e atender prontamente à vontade de evacuar.
  • Banhos de assento: imersão em água morna alivia o desconforto e a inflamação nas crises.
  • Pomadas e medicações: aliviam sintomas no curto prazo; venotônicos orais podem reduzir sangramento e inchaço em alguns casos. São coadjuvantes — controlam a crise, mas não corrigem a anatomia.

Em hemorroidas grau I ou II, esse conjunto frequentemente mantém a pessoa sem sintomas por longos períodos.

Ligadura elástica

Quando as medidas clínicas não bastam, mas o quadro ainda não exige uma cirurgia maior, a ligadura elástica é uma opção minimamente invasiva e muito eficaz para hemorroidas internas de grau I a III. Um pequeno anel de borracha é aplicado na base da hemorroida, interrompendo seu suprimento de sangue; o tecido seca e se desprende em poucos dias. Pode exigir mais de uma sessão.

Aqui, a ligadura é realizada em centro cirúrgico, em ambiente controlado e com sedação para máximo conforto, com alta no mesmo dia — o que torna o procedimento mais tranquilo e seguro, sobretudo quando é preciso tratar mais de um ponto. A ligadura trata o componente interno; não remove plicomas nem resolve hemorroidas externas, o que reforça a importância do diagnóstico correto antes de indicá-la.

Existem ainda outras técnicas minimamente invasivas descritas na literatura, como a escleroterapia, a fotocoagulação por infravermelho e a hemorroidoplastia a laser, disponíveis em alguns serviços. O tratamento aqui se concentra na ligadura elástica e, quando há indicação cirúrgica, nas técnicas a seguir.

Cirurgias: o tratamento definitivo

Para hemorroidas de grau III e IV, grandes componentes externos, prolapso importante ou falha dos tratamentos anteriores, entram as técnicas cirúrgicas:

  • Hemorroidectomia convencional: a remoção cirúrgica das hemorroidas. É o padrão de referência para casos avançados, com a menor taxa de recidiva no longo prazo; em contrapartida, envolve mais dor no pós-operatório e recuperação mais longa.
  • THD / desarterialização guiada por Doppler (com mucopexia): localiza e amarra as artérias que alimentam as hemorroidas e reposiciona o tecido prolapsado. Sem corte da região sensível, a dor costuma ser menor. Indicada sobretudo para graus II e III.
  • Hemorroidopexia grampeada: com um grampeador circular, remove-se um anel de mucosa acima das hemorroidas, reposicionando o prolapso e reduzindo o fluxo de sangue. Boa opção para prolapso circunferencial (grau III–IV), com menos dor que a convencional.

É comum ouvir os termos “cirurgia de hemorroida a laser” ou “sem corte” como se fossem uma única coisa. Na prática, existem técnicas diferentes — THD, hemorroidopexia grampeada, laser —, cada uma com indicações específicas, e nenhuma é “melhor” em todos os cenários. O tratamento aqui prioriza a THD e a hemorroidopexia grampeada para o prolapso, e a hemorroidectomia para os casos mais avançados; o que define a escolha é sempre o seu caso.

TécnicaIndicação típicaAnestesiaDor / recuperaçãoRecidiva
Ligadura elásticaGraus I–III (interna)Sedação (centro cirúrgico)Mínima; alta no mesmo diaModerada (pode repetir)
THD / desarterializaçãoGraus II–IIISimMenor que a convencionalBaixa a moderada
Hemorroidopexia grampeadaGraus III–IV (prolapso)SimMenor que a convencionalBaixa a moderada
Hemorroidectomia convencionalGraus III–IV, grande componente externoSimMaior; 2–4 semanasMais baixa (padrão-ouro)

As informações são gerais e orientativas; a indicação real depende da avaliação individual.

Como a melhor técnica é escolhida

Não existe técnica universalmente superior — existe a técnica certa para cada situação. A decisão leva em conta:

  • O grau e o tipo: graus baixos favorecem procedimentos minimamente invasivos; graus altos e grandes componentes externos costumam pedir cirurgia.
  • A presença de prolapso: prolapsos importantes se beneficiam de técnicas que reposicionam o tecido, como a grampeada e a THD.
  • O tempo de recuperação aceitável e as condições de saúde (uso de anticoagulantes, doenças anorretais associadas, anatomia individual).
  • A taxa de recidiva: técnicas menos invasivas têm recuperação mais fácil, mas em alguns cenários a chance de o problema voltar é maior do que com a hemorroidectomia convencional.

Por isso a melhor conduta nasce de uma conversa: entender suas prioridades, explicar prós e contras de cada caminho e construir a decisão em conjunto.

Trombose hemorroidária: a urgência mais comum

A trombose de uma hemorroida externa é a forma aguda mais frequente. Ocorre quando se forma um coágulo dentro da hemorroida, gerando dor súbita e intensa e um nódulo endurecido e arroxeado na borda do ânus, com pico de dor nas primeiras 48 a 72 horas.

Nem toda trombose precisa de procedimento: muitas melhoram com analgésicos, anti-inflamatórios, banhos de assento e tempo. Quando a dor é muito intensa e o quadro é recente, a remoção do coágulo pode trazer alívio rápido. Veja em detalhe o tratamento da hemorroida trombosada.

Recuperação e pós-operatório

A recuperação varia conforme a técnica. Após a ligadura elástica, o retorno às atividades costuma ser rápido — em geral em um a poucos dias —, com pequeno desconforto. Após cirurgias, o tempo é maior, e é aqui que mora boa parte do receio das pessoas.

Na hemorroidectomia convencional, o desconforto é mais significativo, com pico nas duas primeiras semanas e melhora progressiva; o retorno às atividades leves costuma ocorrer em 2 a 4 semanas e a recuperação completa em 1 a 3 meses. Técnicas como a THD e a hemorroidopexia grampeada tendem a cursar com menos dor. Em todas, os cuidados pós-operatórios fazem diferença: dieta rica em fibras, boa hidratação, higiene cuidadosa, banhos de assento e uso correto das medicações. Veja o guia de recuperação após a hemorroidectomia e entenda também se a cirurgia de hemorroidas dói.

Hemorroidas na gravidez

A gestação é um período de altíssima frequência de hemorroidas, pela combinação do aumento do volume sanguíneo, da pressão do útero sobre as veias da pelve, das alterações hormonais e da tendência à prisão de ventre. A maioria dos casos é controlada com medidas conservadoras seguras na gravidez, e muitos sintomas regridem após o parto. Procedimentos, quando necessários, são reservados a situações específicas. Saiba mais sobre hemorroidas na gestação.

Como prevenir hemorroidas

A prevenção gira em torno de um objetivo central: evacuar sem esforço. Para isso valem hábitos simples e consistentes:

  • Manter dieta rica em fibras e boa hidratação, garantindo fezes macias;
  • Praticar atividade física regular, que estimula o trânsito intestinal;
  • Não adiar a vontade de evacuar e evitar forçar;
  • Não passar tempo excessivo no vaso (inclusive lendo ou no celular);
  • Tratar precocemente a prisão de ventre e a diarreia crônica.

Essas medidas previnem novos episódios e ajudam a evitar a recidiva depois de qualquer tratamento.

Mitos comuns sobre hemorroidas

  • “Todo sangramento anal é hemorroida.” Falso — e perigoso. Sangrar pode ter outras causas, algumas sérias. A avaliação é o que diferencia.
  • “Hemorroida vira câncer.” Falso. Hemorroidas não se transformam em câncer; o cuidado é não confundir os sintomas e deixar de investigar.
  • “Toda hemorroida precisa de cirurgia.” Falso. A maioria é tratada sem cirurgia.
  • “A cirurgia é sempre um sofrimento.” Desatualizado. As técnicas modernas reduziram a dor e o tempo de recuperação em muitos casos.
  • “Pomada resolve definitivamente.” Falso. Pomadas aliviam sintomas, mas não corrigem a causa anatômica.

Dúvidas frequentes

Perguntas e respostas

Toda hemorroida precisa de cirurgia?
Não. A maioria dos casos melhora com medidas clínicas — dieta rica em fibras, hidratação, pomadas — e com procedimentos minimamente invasivos como a ligadura elástica. A cirurgia fica reservada para graus mais avançados (3 e 4) ou quando o tratamento clínico não resolve.
O que causa o sangramento das hemorroidas?
O sangramento, em geral vermelho-vivo ao evacuar, ocorre pelo atrito das fezes sobre as veias dilatadas. Embora comum, sangramento anal nunca deve ser presumido como hemorroida sem avaliação, pois pode ter outras causas — por isso a consulta é importante.
Cirurgia de hemorroida dói?
Há desconforto no pós-operatório, com pico nas duas primeiras semanas, controlado com analgésicos prescritos. Técnicas menos invasivas, como a THD e a hemorroidopexia grampeada, tendem a cursar com menos dor e retorno mais rápido às atividades.
Quanto tempo dura a recuperação?
Na maioria dos casos, o retorno às atividades leves ocorre entre 2 e 4 semanas, com recuperação completa de 1 a 3 meses na cirurgia convencional. O tempo varia conforme a técnica e os cuidados pós-operatórios.
A cirurgia de hemorroida afeta o controle das fezes?
Quando indicada e realizada por técnica adequada, a cirurgia preserva a função do esfíncter e não causa incontinência na imensa maioria dos casos. A avaliação cuidadosa antes do procedimento é o que garante esse resultado.
Qual é a melhor técnica para tratar hemorroidas?
Não existe uma técnica melhor para todos. A escolha depende do grau, da presença de prolapso, do tempo de recuperação aceitável e das condições de saúde. O melhor método é definido em conjunto, na consulta, após o diagnóstico.

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