A cirurgia de hemorroidas dói? A resposta honesta é: depende da técnica. A hemorroidectomia convencional é conhecida por um pós-operatório bastante desconfortável, especialmente nos primeiros dias. Já as técnicas modernas — como a desarterialização (THD), o laser e a cirurgia com grampeador (PPH) — tendem a causar dor significativamente menor e permitem um retorno mais rápido às atividades. Mas cada abordagem tem indicação específica, e nem toda hemorroida precisa de cirurgia.
Por que a cirurgia convencional dói tanto?
A região anal é uma das mais sensíveis do corpo humano, repleta de terminações nervosas. Na hemorroidectomia convencional — também chamada de técnica de Milligan-Morgan ou Ferguson — os mamilos hemorroidários são retirados cirurgicamente, deixando feridas abertas ou suturadas muito próximas à pele anal. Isso explica por que muitas pessoas descrevem o pós-operatório como o período mais desconfortável de suas vidas.
A dor tende a ser mais intensa nas primeiras 48 a 72 horas e piora especialmente durante as evacuações. Ela vai diminuindo ao longo de duas a três semanas, mas pequenos desconfortos podem persistir por até um mês ou mais, dependendo da extensão da cirurgia e da resposta individual.
Isso não significa que a cirurgia convencional deva ser evitada. Em hemorroidas de graus III e IV com prolapso importante e vasos calibrosos, ela ainda é a técnica com as melhores taxas de cura em longo prazo. O benefício, nesses casos, supera o desconforto do pós-operatório.
Técnicas modernas: menos dor, mas com indicações próprias
Nas últimas décadas surgiram abordagens que preservam a mucosa anal e atuam nas hemorroidas de forma menos agressiva. Cada uma tem indicação precisa — não existe "a melhor técnica para todos".
| Técnica | Graus indicados | Dor esperada | Afastamento aproximado |
|---|---|---|---|
| Hemorroidectomia convencional (Milligan-Morgan / Ferguson) | III e IV (e casos mistos complexos) | Intensa nos primeiros dias; moderada por 2–3 semanas | 14–21 dias |
| PPH (grampeador / Longo) | III e alguns IV com prolapso mucoso predominante | Leve a moderada; melhora rápida | 7–10 dias |
| THD / Desarterialização com mucopexia | II, III e selecionados IV | Leve; a maioria retorna ao trabalho em poucos dias | 3–7 dias |
| Laser | I, II e III iniciais | Mínima a leve | 1–5 dias |
| Ligadura elástica (não é cirurgia, é procedimento ambulatorial) | I e II (e alguns III) | Desconforto leve a moderado por 2–3 dias | Geralmente sem afastamento formal |
Atenção: os números de afastamento são estimativas. Quem trabalha em funções que exigem esforço físico intenso pode precisar de mais tempo do que quem trabalha sentado.
Quando a cirurgia é realmente necessária?
Hemorroidas de graus I e II costumam responder bem a mudanças de dieta (mais fibras e água), hábitos no banheiro (não forçar, não ficar tempo demais no vaso), banhos de assento e, às vezes, medicamentos tópicos ou procedimentos ambulatoriais como a ligadura elástica. A cirurgia não costuma ser a primeira escolha nesses casos.
A indicação cirúrgica fica mais clara quando:
- As hemorroidas são de grau III ou IV com prolapso que não reduz espontaneamente;
- Há sangramento importante e repetido que não melhora com tratamento clínico;
- Existe trombose aguda com dor intensa;
- Os procedimentos ambulatoriais não resolveram o problema.
Recuperação dia a dia: o que esperar
O roteiro abaixo é uma referência geral para a hemorroidectomia convencional, que é a que exige mais cuidado. As técnicas modernas costumam ter evolução mais rápida.
Primeiros 3 dias
São os mais desconfortáveis. A dor é esperada, principalmente ao evacuar. O médico prescreverá analgésicos e, muitas vezes, um anti-inflamatório. Repousar e manter a dieta leve ajudam muito. Evite esforço físico.
Dias 4 a 10
A dor começa a ceder progressivamente. O inchaço ainda pode estar presente. Comece a introduzir gradualmente alimentos com mais fibra. O banho de assento morno (duas a três vezes ao dia, especialmente após evacuar) alivia o desconforto e ajuda na cicatrização.
Semanas 2 e 3
A maioria das pessoas consegue retornar ao trabalho sedentário nesse período, após cirurgia convencional. Atividades físicas moderadas podem ser retomadas conforme orientação do cirurgião.
A partir da 4ª semana
A cicatrização está mais avançada. Pequenos pontos de sangramento ou secreção ainda podem ocorrer e são, em geral, normais. Dor intensa, febre, sangramento abundante ou dificuldade de urinar devem ser comunicados imediatamente ao cirurgião.
Cuidados essenciais na recuperação
- Banho de assento morno: duas a três vezes ao dia por 10–15 minutos, especialmente após evacuar. Alivia a dor e previne infecção.
- Dieta rica em fibras desde o início: frutas, legumes, verduras e grãos integrais ajudam a amolecer as fezes e tornam a evacuação menos dolorosa. O médico pode indicar um suplemento de fibras.
- Hidratação: beba bastante água ao longo do dia.
- Analgesia regular: não espere a dor ficar insuportável para tomar o remédio. Siga o esquema prescrito.
- Laxante suave se necessário: o cirurgião pode receitar nos primeiros dias para evitar fezes ressecadas.
- Evite esforço e levantamento de peso: nas primeiras semanas, especialmente após cirurgia convencional.
- Retorno programado: não fique com dúvidas; ligue para o consultório se algo não estiver como esperado.
Perguntas frequentes
Dá para fazer a cirurgia e voltar ao trabalho no dia seguinte?
Com as técnicas minimamente invasivas (THD, laser), algumas pessoas com trabalho sedentário conseguem voltar em dois a quatro dias. Com a cirurgia convencional, o mais comum é aguardar entre 10 e 21 dias. Isso varia muito de pessoa para pessoa e do tipo de trabalho.
A anestesia é geral ou local?
Na maioria das vezes, usa-se raquianestesia (anestesia na coluna), que adormece a parte inferior do corpo. A anestesia geral também é uma opção em alguns casos. A decisão é feita em conjunto com o anestesiologista, levando em conta o estado de saúde do paciente.
As hemorroidas voltam depois da cirurgia?
Com a hemorroidectomia convencional, a recorrência é baixa em longo prazo. As técnicas modernas, especialmente para graus menores, têm taxas de recorrência um pouco maiores ao longo dos anos, mas o perfil de dor e recuperação é bem mais favorável. O médico discutirá o risco de recorrência para cada técnica no seu caso.
Preciso ser internado?
A maioria das cirurgias de hemorroidas é feita em regime de hospital-dia: o paciente fica algumas horas em observação e vai para casa no mesmo dia. Internações de um dia podem ser necessárias em casos mais complexos.
Se você está com dúvidas sobre qual tratamento é o mais adequado para o seu caso, o primeiro passo é uma avaliação com um cirurgião do aparelho digestivo. Cada caso é conduzido de forma individualizada, considerando o grau da doença, o perfil do paciente e as melhores evidências disponíveis. Agende sua consulta para entender, sem pressa, qual é a melhor opção para você.
