Se você recebeu o diagnóstico de acalásia e está pesquisando sobre tratamento, provavelmente já se deparou com dois nomes: POEM e cirurgia de Heller. A boa notícia é que ambas são opções eficazes para aliviar a disfagia — a dificuldade para engolir que é o principal sintoma da doença. A escolha entre elas depende do tipo de acalásia que você tem, do seu histórico de saúde e de uma conversa individualizada com seu médico.
O que é a cirurgia de Heller laparoscópica?
A miotomia de Heller laparoscópica é o procedimento cirúrgico mais estabelecido para acalásia. Por meio de três a cinco pequenas incisões no abdome, o cirurgião acessa o esôfago com câmera e instrumentos finos (videolaparoscopia) e corta as fibras musculares do esfíncter esofagiano inferior — o músculo que, na acalásia, permanece contraído e impede a passagem dos alimentos para o estômago.
Na maioria das vezes, a miotomia de Heller é combinada com uma fundoplicatura parcial: o fundo do estômago é dobrado parcialmente ao redor da junção esôfago-gástrica para criar uma barreira antirrefluxo. Esse passo adicional é importante porque, ao relaxar o músculo, o procedimento também facilita o retorno de ácido do estômago para o esôfago. As técnicas de Dor (anterior) e Toupet (posterior) são as fundoplicaturas parciais mais usadas em conjunto com o Heller.
O que é o POEM?
O POEM (do inglês Per-Oral Endoscopic Myotomy, ou miotomia endoscópica pela boca) é uma técnica mais recente que realiza o mesmo corte muscular — a miotomia — mas de dentro do esôfago, sem nenhuma incisão na barriga.
O procedimento é feito com o paciente sob anestesia geral: o endoscopista introduz o endoscópio pela boca, abre uma pequena entrada na mucosa do esôfago, cria um túnel entre as camadas da parede esofágica e, por dentro desse túnel, corta as fibras musculares do esfíncter. Ao final, a abertura na mucosa é fechada com clipes metálicos. A internação costuma ser de um a dois dias e a recuperação é rápida.
O POEM não inclui fundoplicatura, ou seja, não há construção de uma barreira antirrefluxo durante o procedimento.
Dilatação pneumática: a terceira opção
Antes de comparar POEM e Heller, vale mencionar a dilatação pneumática, uma alternativa endoscópica menos invasiva: um balão é posicionado no esfíncter e inflado de forma controlada para romper parte das fibras musculares e aliviar a passagem dos alimentos. É feita geralmente com sedação, sem cortes, e pode ser realizada em regime ambulatorial. Pode ser uma boa alternativa para pacientes mais idosos ou com contraindicações a procedimentos mais prolongados, mas com frequência precisa ser repetida ao longo dos anos para manter o efeito.
Eficácia na disfagia: POEM e Heller são comparáveis
Estudos comparativos mostram que tanto o POEM quanto a cirurgia de Heller alcançam taxas semelhantes de melhora da disfagia. A maioria dos pacientes experimenta alívio significativo da dificuldade para engolir com qualquer uma das duas técnicas.
A diferença mais relevante está no refluxo gastroesofágico pós-procedimento. Como o POEM não inclui a fundoplicatura, o refluxo tende a ser mais frequente do que após a cirurgia de Heller com fundoplicatura parcial. Isso não significa que todos os pacientes submetidos ao POEM terão refluxo intenso, mas é um aspecto que precisa ser monitorado — muitas vezes com uso de inibidores de bomba de prótons e endoscopia de acompanhamento.
Como o tipo de acalásia influencia a escolha?
A manometria de alta resolução — exame que mede a pressão dentro do esôfago durante as deglutições — classifica a acalásia em três tipos:
- Tipo I: esôfago com ausência de contrações (aperistalse clássica).
- Tipo II: pressurização do esôfago durante as deglutições — geralmente o tipo que responde melhor a qualquer tratamento.
- Tipo III (espástica): contrações prematuras e vigorosas ao longo do corpo do esôfago.
O tipo III é especialmente relevante na decisão. Como o POEM permite realizar uma miotomia mais longa — estendendo-se pelo corpo do esôfago além do esfíncter —, ele tende a ser preferido na acalásia tipo III, onde as contrações espásticas ocorrem em uma extensão maior do órgão. Para os tipos I e II, ambas as técnicas funcionam bem, e outros fatores entram na decisão.
Tabela comparativa: POEM × Cirurgia de Heller × Dilatação Pneumática
| Aspecto | POEM | Cirurgia de Heller | Dilatação Pneumática |
|---|---|---|---|
| Tipo de acesso | Endoscópico (pela boca) | Videolaparoscópico (mini-incisões) | Endoscópico (pela boca) |
| Anestesia | Geral | Geral | Sedação ou geral |
| Internação típica | 1–2 dias | 2–3 dias | Ambulatorial ou 1 dia |
| Cicatriz externa | Nenhuma | Mínima (3–5 pontos) | Nenhuma |
| Eficácia na disfagia | Alta | Alta | Boa (pode exigir repetição) |
| Risco de refluxo | Mais frequente | Menor (com fundoplicatura) | Variável |
| Vantagem no tipo III | Sim (miotomia mais longa) | Limitada | Menor eficácia |
Qual procedimento é mais indicado para você?
Não existe uma resposta única. A decisão leva em conta o tipo manométrico da sua acalásia, se você já tem sintomas ou histórico de refluxo, o grau de dilatação do esôfago, outras condições de saúde, a experiência do serviço onde será tratado e suas próprias preferências. Pacientes com acalásia tipo III, por exemplo, costumam ser candidatos prioritários ao POEM. Já quem tem refluxo importante ou esofagite associada pode se beneficiar da barreira antirrefluxo que a fundoplicatura do Heller oferece.
A escolha do melhor procedimento costuma sair de uma discussão multidisciplinar e é, na prática, uma conversa personalizada — não há protocolo que substitua a avaliação individual.
Perguntas frequentes
Depois do POEM preciso tomar remédio para refluxo para sempre?
Não necessariamente para sempre, mas muitos pacientes usam inibidores de bomba de prótons por um período após o POEM e realizam endoscopia de controle para avaliar a presença de esofagite. A necessidade de uso prolongado varia de pessoa para pessoa e deve ser avaliada no acompanhamento.
Posso fazer POEM se já fiz cirurgia de Heller antes?
Em alguns casos sim, mas as aderências deixadas pelo procedimento anterior podem complicar a técnica. A situação precisa ser avaliada individualmente por um serviço com experiência em reoperações esofagianas.
A disfagia pode voltar depois do POEM ou do Heller?
Os tratamentos aliviam o obstáculo muscular, mas não restauram o funcionamento normal do esôfago. Um número menor de pacientes pode apresentar recorrência da disfagia ao longo dos anos e necessitar de novo procedimento. Por isso, o acompanhamento periódico é importante mesmo após a melhora dos sintomas.
Como posso agendar uma avaliação?
Se você foi diagnosticado com acalásia e quer discutir qual opção de tratamento é mais adequada para o seu caso, entre em contato para agendar uma consulta. Traga seus exames — especialmente a manometria e a endoscopia — para que a avaliação seja mais precisa e completa.
