Dr. Daniel Szor
Tela cirúrgica de hérnia dissolve, é para sempre ou pode dar problema?
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Tela cirúrgica de hérnia dissolve, é para sempre ou pode dar problema?

14 de junho de 2026

A tela cirúrgica de hérnia — chamada em inglês de meshnão dissolve na grande maioria dos casos. As telas mais utilizadas no mundo são sintéticas e permanecem no corpo de forma permanente, incorporando-se ao tecido ao longo dos meses. Existem variações parcialmente absorvíveis e telas biológicas, usadas em situações específicas, mas a tela permanente de polipropileno continua sendo o padrão na cirurgia de hérnia inguinal e incisional. Se você está com medo de operar por causa da tela, este artigo foi escrito para esclarecer o que é real e o que é exagero.

Por que se usa tela na cirurgia de hérnia?

A hérnia acontece quando há uma fraqueza na parede abdominal e o conteúdo interno (geralmente intestino ou gordura) empurra por essa abertura. O objetivo da cirurgia é fechar esse orifício e reforçar a parede para que a hérnia não volte.

No passado, a técnica predominante era costurar os tecidos locais uns nos outros para tampar o defeito. O problema é que essa sutura coloca tensão nos tecidos, e quanto mais tensão, maior o risco de a hérnia recidivar — isto é, de voltar no mesmo lugar. Estudos acumulados ao longo de décadas mostraram que o uso da tela reduz significativamente as chances de recidiva em comparação com as técnicas sem tela, especialmente em hérnias inguinais e nas hérnias incisionais (aquelas que surgem em cicatrizes de cirurgias anteriores). Por isso, o uso da tela passou a ser o padrão recomendado pelas principais diretrizes de cirurgia no mundo.

Quais são os tipos de tela?

Nem toda tela é igual. O cirurgião escolhe o tipo com base no local da hérnia, no tamanho do defeito, nas condições clínicas do paciente e em outros fatores. Veja as principais categorias:

Tipo de tela Material Permanência Quando é usada
Sintética permanente Polipropileno (PP), poliéster Permanente Hérnia inguinal, umbilical, incisional sem infecção
Parcialmente absorvível PP + fibra absorvível (ex: poliglecaprone, poliglactina) Parcialmente absorvível (fica uma estrutura PP leve) Regiões onde se quer menos material estranho a longo prazo
Biológica Colágeno (porcino, bovino ou humano) Gradualmente substituída por tecido próprio Situações com infecção ou contaminação do campo cirúrgico

Tela sintética permanente

É a mais utilizada e a mais estudada. Feita principalmente de polipropileno, ela estimula uma resposta cicatricial ao redor de seus fios, e ao longo de semanas a meses se integra ao tecido da parede abdominal, formando uma estrutura resistente. Para a grande maioria das pessoas, essa tela permanece no corpo durante toda a vida sem causar nenhum problema perceptível.

Tela parcialmente absorvível

Combina fios permanentes com fios que são gradualmente absorvidos pelo organismo. O resultado final é uma tela mais leve que permanece incorporada. É uma opção empregada em situações onde o cirurgião deseja reduzir a quantidade de material estranho e aumentar a flexibilidade da parede, como em hérnias de parede abdominal complexas.

Tela biológica

Derivada de colágeno animal (geralmente porcino ou bovino) ou humano tratado, a tela biológica é projetada para ser gradualmente substituída pelo tecido do próprio paciente. É usada principalmente quando há risco de infecção — por exemplo, em cirurgias de emergência, em campo contaminado ou em pacientes imunossuprimidos — porque as telas sintéticas têm maior chance de infecção crônica nesses contextos. O custo é consideravelmente maior e a taxa de recidiva pode ser mais alta que com telas sintéticas em condições ideais.

A tela é segura a longo prazo?

Sim, para a grande maioria das pessoas. Décadas de uso e milhões de cirurgias realizadas no mundo com telas de polipropileno mostram que a incorporação é bem tolerada. Após os primeiros meses, a maioria dos pacientes simplesmente esquece que tem a tela — ela não é sentida, não aparece em exames de rotina e não interfere nas atividades do dia a dia.

É importante separar os dados reais dos alarmes que circulam na internet. Nos últimos anos, houve ampla cobertura midiática negativa sobre telas cirúrgicas, especialmente relacionadas ao tratamento de incontinência urinária e prolapso genital em mulheres — uma aplicação completamente diferente da cirurgia de hérnia. Esses dois contextos não devem ser confundidos.

Quais são os riscos reais?

Riscos existem, mas são incomuns quando a cirurgia é realizada em condições adequadas e com indicação correta. Os principais são:

  • Infecção da tela: rara em cirurgias eletivas sem contaminação. Quando ocorre, pode exigir antibióticos prolongados e, em casos graves, a remoção da tela.
  • Seroma: acúmulo de líquido ao redor da tela, especialmente em hérnias maiores. Geralmente se resolve sozinho, mas pode precisar de drenagem.
  • Dor crônica: alguns pacientes desenvolvem dor na região operada que persiste além do período esperado de recuperação. É uma complicação reconhecida, mais relacionada à técnica cirúrgica e à posição da tela do que ao material em si.
  • Erosão ou migração: extremamente raras com as telas modernas usadas em hérnias da parede abdominal.
  • Recidiva mesmo com tela: a tela reduz muito o risco de recidiva, mas não o elimina completamente, especialmente em hérnias muito grandes ou quando há fatores de risco associados (obesidade, tabagismo, aumento crônico da pressão abdominal).

O que é mito sobre a tela cirúrgica?

  • "A tela vai se partir dentro de mim." As telas sintéticas modernas são altamente resistentes e não se fragmentam em condições de uso normal. Elas são projetadas para suportar a pressão intra-abdominal ao longo de toda a vida.
  • "Vou sentir a tela para sempre." Na maior parte dos casos, a tela é completamente imperceptível após a cicatrização. A sensação estranha nos primeiros meses, quando existe, tende a desaparecer.
  • "Tela causa câncer." Não há evidência científica que associe o uso de telas de polipropileno em hérnias ao desenvolvimento de câncer.
  • "Se operar com tela, não posso fazer esforço nunca mais." Pelo contrário — após a recuperação adequada, que leva geralmente algumas semanas, os pacientes retornam plenamente às suas atividades, incluindo exercícios físicos e trabalho manual.

Existe situação em que a cirurgia pode ser feita SEM tela?

Sim. Em crianças, a cirurgia de hérnia inguinal normalmente é realizada sem tela, porque o tecido ainda é jovem e a simples correção anatômica já apresenta excelentes resultados. Em adultos jovens com hérnias inguinais muito pequenas e parede abdominal de boa qualidade, alguns cirurgiões ainda utilizam a técnica de Shouldice — uma técnica refinada de sutura sem tela — com bons resultados. No entanto, para a maioria dos adultos com hérnia inguinal, umbilical ou incisional, o uso da tela é a opção que oferece menor risco de recidiva.

Perguntas frequentes

Posso fazer ressonância magnética com a tela?

Sim. As telas de polipropileno e poliéster não são metálicas e não interferem na realização de ressonância magnética. Você pode fazer o exame sem restrição.

A tela pode ser removida se der problema?

Tecnicamente sim, mas a remoção é uma cirurgia complexa, especialmente quando a tela já está bem incorporada ao tecido. Por isso, a indicação de remoção é reservada para casos com infecção grave ou dor crônica severa que não responde a outros tratamentos. A grande maioria das pessoas nunca precisará remover a tela.

Engordei após a cirurgia. A tela vai aguentar?

As telas têm boa tolerância a variações de peso. No entanto, o ganho de peso significativo aumenta a pressão sobre a parede abdominal e pode elevar o risco de recidiva — não necessariamente pelo rompimento da tela, mas pela abertura de novos pontos fracos ao redor dela. Manter um peso saudável ajuda a proteger o resultado cirúrgico.

Quanto tempo após a cirurgia posso voltar ao esforço físico?

Depende do tipo de hérnia, da técnica utilizada e da atividade em questão. Em cirurgias laparoscópicas de hérnia inguinal, muitos pacientes voltam a atividades leves em poucos dias e a esforços mais intensos em quatro a seis semanas. Em hérnias incisionais maiores, o prazo pode ser maior. Seu cirurgião vai orientar conforme o seu caso específico.

Uma parte importante da consulta pré-operatória é justamente esclarecer essas dúvidas — para que o paciente entre na cirurgia informado e tranquilo, não assustado por informações distorcidas que circulam na internet.

Se você tem uma hérnia diagnosticada ou suspeita e quer entender qual é a melhor opção para o seu caso, entre em contato pelos canais disponíveis neste site para agendar uma avaliação.

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