Dr. Daniel Szor
Enzimas hepáticas no exame de sangue: o que são e o que significam
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Enzimas hepáticas no exame de sangue: o que são e o que significam

9 de junho de 2026

O que são as enzimas hepáticas?

Enzimas são proteínas produzidas pelas células do corpo. O fígado e as vias biliares (os canais que conduzem a bile) possuem enzimas próprias e, quando há algum tipo de lesão ou alteração nessas estruturas, parte dessas enzimas "vaza" para o sangue. Por isso, quando aparecem aumentadas em um exame, funcionam como um sinal de alerta de que algo pode estar acontecendo no fígado ou nas vias biliares.

Elas costumam ser dosadas em exames de rotina, no chamado "hepatograma" ou avaliação da função hepática. Vale saber: a dosagem mostra que há uma alteração, mas não diz sozinha qual é a causa — isso depende de interpretação médica no conjunto.

As principais enzimas do exame

  • TGO (AST) e TGP (ALT) — são as "transaminases", encontradas dentro das células do fígado. Aumentam principalmente quando há lesão dessas células. A TGP/ALT é mais específica do fígado; a TGO/AST também existe em músculos e no coração.
  • Fosfatase alcalina (FA) e Gama-GT (GGT) — são as chamadas enzimas canaliculares (ou colestáticas), ligadas aos pequenos canais que drenam a bile. Tendem a subir quando há dificuldade no fluxo da bile (colestase), como em obstruções das vias biliares; a GGT também se eleva com álcool e alguns medicamentos.
  • Bilirrubinas — não são enzimas, mas costumam ser avaliadas junto. Quando se acumulam, causam a icterícia (a pele e os olhos ficam amarelados).

Dois padrões de alteração

Para interpretar o exame, o médico observa qual grupo de enzimas predomina:

  • Padrão hepatocelular — quando TGO/TGP estão mais elevadas. Sugere lesão das células do fígado (por exemplo, gordura no fígado, hepatites virais, álcool ou medicamentos).
  • Padrão colestático — quando fosfatase alcalina e GGT predominam. Sugere problema no fluxo da bile, como um cálculo entalado nas vias biliares ou outras obstruções. É o padrão que mais frequentemente envolve o cirurgião do aparelho digestivo.

O que pode alterar as enzimas hepáticas?

As causas são muitas e variam de leves a importantes. Entre as mais comuns:

  • Gordura no fígado (esteatose hepática) — hoje a causa mais frequente de alteração leve das transaminases;
  • Consumo de álcool;
  • Medicamentos e suplementos (inclusive alguns "naturais");
  • Hepatites virais;
  • Cálculos e obstruções das vias biliares (padrão colestático);
  • Exercício físico intenso recente (pode elevar a TGO/AST).

Enzimas alteradas significam doença grave?

Não necessariamente. Pequenas alterações são muito comuns e, em boa parte das vezes, reversíveis — como na gordura no fígado. Por outro lado, alterações persistentes ou acentuadas merecem investigação. O que importa é o conjunto: qual enzima está alterada, em que grau, junto de quais sintomas e história clínica.

Quando isso interessa ao cirurgião do aparelho digestivo

Quando o padrão é colestático — com fosfatase alcalina, GGT e bilirrubina elevadas — pode haver obstrução das vias biliares. Um exemplo clássico é o cálculo que sai da vesícula e fica preso no colédoco (o canal principal da bile). Nesses casos, costuma ser necessário complementar com exames de imagem e, às vezes, indicar um procedimento ou cirurgia para desobstruir.

O que diz a ciência

A diretriz do American College of Gastroenterology (ACG, 2017) sobre avaliação de exames hepáticos alterados orienta justamente esse raciocínio: identificar o padrão (hepatocelular ou colestático), considerar a magnitude da alteração e, muitas vezes, repetir/confirmar o exame antes de partir para investigações mais complexas. A diretriz reforça que alterações discretas são frequentes e que a investigação deve ser guiada pela história e pelo exame de cada pessoa.

Quando procurar avaliação

Vale levar ao médico se as enzimas vierem alteradas em um exame de rotina — sobretudo se persistirem em uma nova dosagem — ou se houver icterícia (pele/olhos amarelados), dor abdominal, urina muito escura ou fezes claras. Esses sinais pedem avaliação mais cuidadosa.

Conclusão

As enzimas hepáticas funcionam como uma "janela" para o fígado e as vias biliares. Alterações são comuns e nem sempre indicam algo grave, mas devem ser interpretadas de forma individualizada, no contexto de cada paciente. Diante de um resultado alterado, o melhor caminho não é se assustar com o número isolado, e sim levá-lo ao médico para avaliação.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A interpretação dos exames deve ser sempre individualizada.

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