O câncer de pâncreas (adenocarcinoma ductal) é um dos tumores mais agressivos do aparelho digestivo, em parte porque costuma ser descoberto em fases avançadas e responde mal aos tratamentos disponíveis. Há décadas se sabe que mutações no gene RAS estão presentes em mais de 90% desses tumores — mas, por muito tempo, o RAS foi considerado "indrogável", ou seja, impossível de bloquear com remédios. Uma droga em investigação, o daraxonrasib, vem mudando esse cenário.
O que é o daraxonrasib?
O daraxonrasib (código de pesquisa RMC-6236), desenvolvido pela empresa Revolution Medicines, é um medicamento oral, de uso diário, da classe dos inibidores de RAS(ON) multisseletivos. Em linguagem simples: é uma terapia-alvo que ataca diretamente a proteína RAS — o "motor" molecular que faz a maioria dos tumores de pâncreas crescer.
O que há de novo nessa droga?
Duas inovações principais explicam o entusiasmo da comunidade médica:
- Ataca o RAS no estado "ligado" (ON). A proteína RAS alterna entre uma forma inativa ("desligada") e uma forma ativa ("ligada"). No câncer de pâncreas, é justamente o estado ligado que mantém o tumor crescendo. As primeiras terapias miravam o estado desligado; o daraxonrasib funciona de outro jeito — ele se liga a uma proteína chamada ciclofilina A e, juntos, formam um "tri-complexo" que bloqueia o RAS na sua forma ativa.
- Cobre várias mutações ao mesmo tempo. Os primeiros inibidores de KRAS aprovados (sotorasibe e adagrasibe) só agem contra uma mutação específica, a KRAS G12C — que é rara no pâncreas. O daraxonrasib é "multisseletivo": atinge as mutações mais comuns desse tumor (como G12D, G12V e G12R) e também o RAS normal. Na prática, isso amplia muito o número de pacientes que poderiam se beneficiar.
O que mostraram os estudos?
Em 2026 foram divulgados os resultados do estudo de fase 3 RASolute 302, realizado em pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam recebido tratamento prévio. Comparado à quimioterapia padrão, o daraxonrasib apresentou:
- Sobrevida global mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses com a quimioterapia;
- Redução de cerca de 60% no risco de morte;
- Melhora também na sobrevida livre de progressão (o tempo em que a doença fica sob controle, sem avançar);
- Um perfil de efeitos colaterais considerado, em geral, manejável.
Os dados foram publicados em uma das revistas médicas de maior prestígio do mundo (New England Journal of Medicine). Para um tumor de prognóstico tão reservado, praticamente dobrar a sobrevida mediana é um avanço expressivo.
O daraxonrasib já está disponível?
Ainda não como tratamento de rotina. O daraxonrasib continua sendo um medicamento em investigação. Nos Estados Unidos, a agência reguladora (FDA) concedeu a ele as designações de "terapia inovadora" (Breakthrough Therapy) e de "medicamento órfão" e autorizou um programa de acesso expandido para alguns pacientes. Porém, ainda não há aprovação comercial ampla, e no Brasil a disponibilidade dependerá da avaliação dos órgãos reguladores (Anvisa) e da participação em estudos clínicos.
O que isso significa para quem tem câncer de pâncreas
É um motivo concreto de esperança — mas com os pés no chão. Cada caso é único: a indicação de qualquer terapia depende do tipo e do estágio do tumor, do perfil molecular (incluindo o teste das mutações no gene RAS), do estado geral de saúde e das opções disponíveis. O acompanhamento com uma equipe multidisciplinar, a discussão sobre testes genômicos do tumor e a possibilidade de participar de estudos clínicos são partes importantes dessa conversa.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Se você ou alguém próximo enfrenta um diagnóstico de câncer de pâncreas, converse com seu oncologista e cirurgião sobre as melhores opções para o seu caso.